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Tentativas monárquicas para derrubar a República

As incursões dos “couceiristas” no Minho e Trás-os-Montes

 Por Manuel Dias, jornalista e escritor

O Minho e Trás-os-Montes  estão indelevelmente ligados às duas tentativas de restaurar a Monarquia ocorridas pouco depois da implantação da República. Foi ao longo do corredor das duas províncias que as hordas arregimentadas por Paiva Couceiro desencadearam as suas incursões, a fim de, com  a participação de muitos habitantes de vilas e aldeias nortenhas, conquistarem terreno e concretizarem os seus objectivos. O sinal de alerta para o que viria a acontecer ecoou, em finais de Setembro de 1911, no Porto, onde uma alteração da ordem pública levou as autoridades a organizarem rusgas, ao mesmo tempo que muitos populares se concentravam junto de unidades militares. Noticiavam os jornais que, em Felgueiras, magotes de indivíduos empunhando espingardas, foices e varapaus entoaram «vivas» à Monarquia e a Paiva Couceiro, seguidos de «morras» à República, e hastearam a bandeira azul e branca na Câmara Municipal. Ao que constava, teria havido uma tentativa de invasão em Soutelinho, próximo de Chaves, o que as autoridades desmentiram. Mas, dias depois, quando o país comemorava o «5 de Outubro», os bandos  armados às ordens de Paiva Couceiro começavam a cruzar a fronteira. Segundo uma nota oficiosa, registara-se “uma incursão de conspiradores que chegaram até Vinhais” e se confrontaram com pequeno destacamento que ali se encontrava. Dado o sinal de alerta, Chaves e Bragança foram ocupadas por forças militares republicanas.

Ao  que  Imprensa apurara algumas centenas de “couceiristas” entraram, durante a noite, na zona fronteiriça vizinha do posto fiscal de Vilar de Perdizes e avançaram até Prada, a 14 quilómetros de Vinhais, sendo Bragança o seu destino. Em Macedo de Cavaleiros, arrombaram a cadeia e soltaram os presos, mas, em Chaves,  o «complot» monárquico foi descoberto e  detidos alguns indivíduos. Na freguesia de Meadela, em Viana do Castelo, os sinos tocaram a rebate e, em Santa Marta, caiu nas mãos das autoridades o padre José Joaquim Soares Borlido, acusado de conspiração. Soube-se, depois, que em Aranhas e Aldeia de João Pires (Castelo Branco), Penamacor e Covilhã, igualmente se esboçaram tentativas de sublevação.

Rememorando os acontecimentos, um  «enviado especial» do JN revelou que os conspiradores, tendo à frente Paiva Couceiro, o Conde de Mangualde, o tenente Vilhena, o dr. José Bacelar e outros, entre os quais o ex-repórter Brás, tinham penetrado em Portugal, na noite de 4 de Outubro, vindos de Espanha, por Tejera, e estavam dispersos por grupos de 50 e 60 homens.  Chegaram a ocupar Vinhais, mas as forças de Infantaria e de Cavalaria puseram-nos em debandada em direcção à fronteira. Fracassava, assim, a primeira incursão monárquica, também marcada pela demissão do ministro da Guerra, general Pimenta de Castro, que, acusado de ter posto em perigo a República ao possibilitar que os “couceiristas” se tivessem internado profundamente, alegou que usara essa estratégia para mais facilmente os  desbaratar.

Curiosamente, Pimenta de Castro, quatro anos depois, em 1915, convidado pelo presidente da República para  chefiar Governo, instituiu a ditadura, dando pulso livre aos monárquicos. Fortemente contestado foi demitido, quatro meses mais tarde, na sequência do movimento denominado “14 de Maio”.

 

A República em Portugal incomodava as casas reais

 

As acções golpistas de Paiva Couceiro foram secundadas por membros da Igreja, que entrara em rota de colisão com os republicanos, após o 5 de Outubro, em consequência da Lei da Separação e dos esbulhos de que foi alvo na sequência da queda da Monarquia. Do mesmo modo, a Casa Real espanhola e o primeiro-ministro Canalejas não esconderam o seu descontentamento pela implantação da República no país vizinho, visto temerem um eventual contágio... Confiante na importância desses apoios e por ter terreno livre junto da fronteira portuguesa, Couceiro retomou o propósito de invadir Portugal e reabrir a porta ao monarca exilado na velha aliada. Assim, em 7 de Julho de 1912,  os seus bandos armados tentaram nova incursão. Desta feita, porém, nem sequer houve surpresa porque, cinco dias antes, o jornal “A Luta” informava que, com o conluio das autoridades espanholas, “os realistas importavam pistolas, carabinas, confeccionavam uniformes, equipamentos e artigos de ambulância e ameaçavam entrar em Portugal”. Naquele dia, os seguidores de Couceiro tentaram assaltar Montalegre e Chaves, tal como na véspera tinha acontecido em Valença, onde foram  destroçados. Em Terras de Basto, surgiram grupos organizados, os quais, em Cabeceiras de Basto, eram encabeçados pelo padre Domingos Pereira, referenciado como responsável pelos atentados ocorrido naquela região, onde foram executados vários republicanos. Também em Évora estava preparado um golpe, com ramificações em Elvas, Vila Viçosa e Estremoz, que, no entanto, abortou, tendo sido presos os principais elementos, entre os quais militares, civis (caso do director de um jornal) e um ex-seminarista.

Ao cabo de 24 horas, vendo-se irremediavelmente derrotado, Couceiro ordenou a retirada dos seus bandos para Espanha. Recorde-se, a propósito, que  a Imprensa independente e liberal do país vizinho se insurgiu contra o respectivo Governo pela protecção dada aos paivantes.

Os jornais portugueses atribuíram o devido relevo aos acontecimentos e, analisando os factos, “O Mundo” escrevia que  a República esmagou os traidores à Pátria, enquanto “A Luta” constatava que, na Europa,  as monarquias sentiam-se vivamente contrariadas pela existência da República em Portugal...

Monsenhor Minhava
A História de Vida dos 88 anos de , um douto Homem a quem a vaidade não consegue seguir, nem modéstia o arrebenta...

Camilo de Araújo Correia
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