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Crendice popular

 LAMEGO E VILAR CHÃO

-        DOIS CASOS PARALELOS

Por Manuel Dias, Jornalista e Escritor

País referenciado como fundamentalmente católico, Portugal oferece terreno fértil para a implantação da crendice. De Norte a Sul, começaram a florescer, especialmente a partir do século XX, santuários inspirados na convicção de que o sobrenatural  estava, por aí, à mão de quem procura remédios celestiais para a resolução dos seus problemas ou  a cura das suas angústias. Assim acontecia quando em qualquer cemitério era exumado um cadáver incorrupto, desde logo apontado como algo sobrenatural, com cheiro de santidade. Por outro, encetou-se o desfile de criaturas que anunciavam visões do Além e afirmavam dialogar com virgens que lhes atribuíram o estatuto de suas representantes na Terra, dotadas de poderes para fazerem milagres.

Relativamente aos corpos incorruptos, o exemplo mais expressivo está patente em Arcozelo, Vila Nova de Gaia, onde, paredes meias com o cemitério, se ergue a capela da “famosa santa”, que tem como nome de baptismo Maria Adelaide, retirada do caixão em que havia sido enterrada dezenas de anos antes e colocada numa urna de vidro na capela que, entretanto, em sua honra foi construída, mercê da generosidade dos devotos, que sempre foram contribuindo com elevadas somas de dinheiro e não poucos quilos de ouro.

Quanto às pessoas “escolhidas” como videntes, o caso mais sugestivo ter-se-á registado na Ladeira do Pinheiro, curiosamente a escassos quilómetros de Fátima, e teve como personagem Maria da Conceição, que um dia  anunciou ser “tu-cá-tu-lá” com a Santíssima Trindade e de, até, ter feito algumas digressões pelo Céu. Ante os sucessos obtidos por essa nova “santa” e em função das numerosas e volumosas ofertas tornou-se possível, à “santa”, construir no seu vasto território uma monumental igreja, inaugurada já no século XXI, pouco antes da sua morte por doença.

Não menos revelador do poder da crendice foi o que se passou em Tropeço, Arouca, a partir do momento em que, em meados dos anos 70 do século XX, uma jovem, Maria Rosalina, que diziam não se alimentar, começou a entrar em êxtase e a ser “visitada” por Nossa Senhora, com quem mantinha diálogos. Tanto bastou para se ver  rodeada de multidões em busca de “acontecimentos sobrenaturais”,  que lhes deixavam dinheiros como forma de pagamento da sua “actividade miraculosa”. Inicialmente, recebia, diariamente, os “peregrinos” que batiam à porta da casa de sua mãe, sempre atenta ao negócio, mas, depois, em função do sucesso obtido, o “santuário” apenas ficou de portas abertas aos fins de semana. Alertadas para sucedido, as autoridades intervieram e a questão foi levada ao Tribunal, com vista a retirar a “santinha de Tropeço” da tutela da mãe. Só que, como no julgamento não se apresentaram testemunhas de acusação e não se fez prova de que a criança fosse maltratada, a sentença apontou no sentido de as autoridades actuarem por forma a pôr-se cobro às peregrinações. Mas, a  decisão não foi acatada, continuando tudo na mesma, e quando completou 18 anos de idade a rapariga ficou “dona do seu destino” e, portanto, com poderes para se entregar à profissão de “vidente”...

Mas, na história da crendice popular, muitos outros casos tiveram grande repercussão. Um rol imenso de que fazem parte, por exemplo, o “Santo de Beire”, a “Princesa da Calçada”, em Arreigada, Paços de Ferreira; a “Santa de Anreade”, em Resende; a Cristina de Bragança, na Póvoa de Lanhoso, a “Santa Maria Justa”, em Abelheira, Escariz; a “Santa Leiteira”, em Vergada, Argoncilhe, etc..

Nenhum deles, porém, se equiparará aos que tiveram como intérpretes as “estigmatizadas” de

Lamego e de Vilar Chão, essa aldeia perdida em terras transmontanas  que se libertou do anonimato ao atrair dezenas de milhar de homens, mulheres e criança em busca do sobrenatural tangível. Curiosamente, em ambas as situações e no centro dos acontecimentos surgiram dois padres, um na qualidade de guia espiritual da “escolhida” e outro no papel de patrão da “miraculada”... Enfim, histórias que não se apagam da memória colectiva.

 

Duas “escolhidas”

com engenho e arte...

 

Em Lamego, tudo começou quando, em 1932, ganhou eco a notícia de que uma serviçal de monsenhor Joaquim Baptista, na propriedade que ele tinha na freguesia de Granja Nova passara a ver, das quintas para as sextas-feiras, abrirem-se-lhe chagas nas mãos. nos pés e no peito, que sangravam durante cerca de duas horas. Badalado o acontecimento, geraram-se movimentos populares para “santificar” a Maria da Conceição de Jesus (assim se chamava) que, nos momentos de “crises”, entre esgares, clamava que se tratava  de coisas “que os médicos não curavam, porque as não entendiam” e não se furtava a comentar que “os senhores doutores também dizem muitas tolices”...

Os crentes acorriam de todo o lado para entrarem em contacto com a “miraculada”, entoando preces e fazendo do angustiantes pedidos, com promessas à mistura. O “fogo sagrado da crendice” foi sendo alimentado ao longo do tempo e para isso muito terão contribuído vários jornais, que acompanharam de perto o caso e assim o propagandearam. Até que, um dia, um padre-jornalista do diário católico “As Novidades” descobriu que afinal era a “santa” que, com uma navalha, fazia nela própria os “estigmas”. No entanto, descoberta a aldrabice, a Maria da Conceição continuou, durante algum tempo, nas boas graças dos seus fiéis e, decorrido mais de um ano, ao que noticiava “A Voz de Lamego” ela por lá passava, “bem vestida, bem trajada, sem sinais de privações ou penitências”...

 

Em Vilar Chão (Alfândega da Fé) a “miraculada” era uma jovem a quem –segundo dizia – “Nossa Senhora aparecia todos os dias pelas sete horas da tarde”. Chamava-se Amélia da Natividade, tinha 22 anos, estava entrevada desde os 15, e na boca, de lado a lado, tinha “uma ferida ulcerosa, de mau aspecto, que a impedia de comer”. Como os médicos “não atinassem com as causas do estranho mal”, o padre da freguesia sugeriu-lhe que implorasse um milagre a Nossa Senhora. Ela assim fez e logo recebeu a “visita” da Virgem que, depois, a curou! Anunciada a “boa nova” passaram a afluir àquela aldeia perdida em Trás-os-Montes dezenas de milhar de peregrinos em busca do “sobrenatural palpável” e que contribuíram largamente para que o casebre da “santa” desse lugar a um templo, cuja construção teria sido pedida por Nossa Senhora durante um dos seus encontros com a Amélia... Segundo ela contou, uma vez por outra ia de visita ao Céu, assim como ao Inferno e ao Purgatório. Numa dessas digressões, “viu” Nosso Senhor com uma cruz, cuja sombra segundo disseprojectada na minha testa, deu origem ao sinal que apresento”!!! Foi esta a explicação dada para os “estigmas”, com a forma de uma cruz,  que  a Amélia da Natividade exibia não só na testa como nas costas das mãos.

Tal espectáculo, iniciado em Julho de 1946, esteve em cena até 1951, altura em que a “estigmatizada” foi internada nos Hospitais da Universidade de Coimbra, a fim de ser observada. Descobriu-se, então, que fazia nela própria os “estigmas” utilizando duas pequenas cruzes de metal, nas quais derramava tintura de iodo, e ao colocá-las na pela provocava aquelas crostas. O material, esse, escondia-o nas partes pudendas!... Foi ali que o descobriram.

Enfim, “coisas do arco da velha”!