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16Nov.2007

Luto

 

A vida é injusta para quem luta

Mais injusto ainda, é morrer

Depois de lutar e conseguir ganhar

Pensar na vida é preciso

Mais pensar na morte é fundamental

É injusto perder depois de ganhar

É injusto viver e não realizar

Então vamos acreditar

Que existe uma vida após a morte

E que o que nos faltou aqui

Venha a se realizar por lá

Eu não quero apenas ter esperanças

Quero confortar meu coração

Pois você estará sempre em nossas lembranças

Não importa onde você esteja ou não.

                                  

Almeida Paz

 

 

Cai a chuva miudinha, que vai saindo das nuvens; soltam-se as folhas das árvores, despega-se a vida do Seu Ser... Que “violência” esta força da Natureza! Calam-se as vozes que outrora chamaram por ti: fazem-no em tua memória... Quiseste libertar-te da Vida e, para tanto, tiveste que Morrer...

Libertou-se da Vida o nosso grande amigo Pe. Jorge Ferreira. Morreu o Homem, mas deixou a Obra. O seu Curriculum, em abreviados momentos, mostra as mais-valias que nos legou e a preciosidade que, sem razão, se perdeu!  

 

O Pe. Jorge Ferreira nasceu a 21 de Julho de 1935, na freguesia de Bouça, concelho de Mirandela.

Ingressou no Mosteiro de Singeverga a 12 de Outubro de 1947, onde recebeu a preparação dos estudos humanísticos, filosóficos e teológicos com elevadas classificações. Emitidos os votos temporários a 30 de Setembro de 1953, foi ordenado sacerdote a 2 de Agosto de 1959, na Sé Catedral do Porto. Imediatamente a seguir, foi solicitada a sua colaboração no Colégio de Lamego, pelo então Director, para a leccionação das cadeiras de filosofia, psicologia e latim. Ao mesmo tempo é indigitado para dirigir as actividades culturais e desportivas extra escolares, levando a cabo saraus artísticos, nomeadamente peças teatrais de Gil Vicente, Camilo Castelo Branco e outros clássicos, além de exposições várias. Nas actividades desportivas o seu contributo foi decisivo para guindar o Colégio à obtenção de vários títulos regionais e nacionais, desde o de campeão ao de vice campeões na modalidade de voleibol.

Entretanto, foi convidado para frequentar um Curso Superior de Liturgia em Roma, no Colégio Internacional de Santo Anselmo (1972). Face àmorte trágica do Director do Colégio viuse forçado a regressar de Roma e voltar ao Colégio de Lamego de forma a continuar a leccionação das mesmas cadeiras.

É fundador do Jornal Arcádia, no ano de 1973, que dirigiu até 1997.

Em 1976 frequentou o curso de História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, findo o qual acumula a docência nas cadeiras de filosofia, história, psicologia, sociologia e latim. Com as alterações dos serviços de exames, no pós 25 de Abril, preside à Direcção do Júri Regional durante três anos, abrangendo os estabelecimentos de ensino particular nos distritos de Viseu, Vila Real e Bragança.

Em 1980 passou a colaborar no Jornal Voz da Abadia, Voz de Lamego e Notícias do Douro. Com as celebrações centenárias do nascimento de S. Bento, em 1980 fez parte da Comissão Fundadora da Associação dos Antigos Alunos do Colégio de Lamego tendo sido nomeado Delegado do Colégio aos Órgãos Sociais com uma participação activa e preponderante no desempenho da Associação em várias actividades por si desenvolvidas, nomeadamente na atribuição de prémios e na promoção de reuniões a nível nacional e regional dos antigos alunos.

Coroou a sua actividade académica naquele estabelecimento de ensino com a publicação da Monografia do Colégio de Lamego, um volume de cerca de 400 páginas, onde se faz o historial do Colégio desde 1859 até 1996 nas vertentes seguintes: histórica, cultural. social e desportiva.

Era um apaixonado e estudioso dos assuntos sociais da Região Demarcada do Douro tendo participado em colóquios e em passeios de estudo.

Desde Setembro de 1997 passou a trabalhar no Mosteiro de S. Bento da Vitória no Porto, dirigindo além de outras actividades monásticas, a Revista Presença de Singeverga e o Boletim "Frei Bernardo".

Estava a preparar a publicação da biografia do Monge/Poeta Frei Bernardo de Vasconcelos cujo processo de beatificação já se encontra em Roma.

 

Desaparecerá o seu corpo, mas o seu rosto ficará duplamente eternizado: no nosso álbum de fotografias e no nosso coração, onde têm lugar os que nos são queridos. Ai, e se tu o eras...!  

 

Não cremos, contudo, que morreu. Antes, que partiu primeiro. Ou até, que venceu primeiro e que cortou mais uma “fita das muitas metas”, tal e qual o corredor que se sente realizado por ter chegado ao fim da corrida, por ter pisado a linha da vitória, por ter descerrado o final a que se propôs no início, convencido que iria ser ele a cortá-la. E vejamos que felicidade se lhes estampa no rosto quando o conseguem!

 

Estamos, pois, cientes de que assim foi, porque quem na vida sempre partiu em primeiro lugar, não poderia (depois de a ter conseguido ganhar) chegar em último! Se tal acontecesse, seria a contradição mais drástica de uma existência tão marcante...   

Nestes momentos de dor, faltam-nos sempre as Palavras.

E por muitas que tivéssemos, quais as que se adequariam a este momento? Não chegam as palavras para expressar as qualidades Humanas, a Ideologia de Vida, a Bondade de Homem, a Ternura de Anjo com que nos olhava, a Palavra Amiga que nos dirigia... O que nos diria o Pe. Jorge neste momento?

 

A justa homenagem acontecerá sempre que a nossa Razão, no mais profundo silêncio, faça vénia ao seu rosto, através da lembrança de todos os bons episódios que juntos partilhámos. Por isso, Amigo, como diz o Poema:

você estará sempre em nossas lembranças, não importa onde você esteja”