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(Isto de se andar a lançar o pânico e o desespero nas populações, com o fantasma do encerramento de urgências e desclassificação de unidades hospitalares importantes, para depois se dar o dito pelo não dito, recuando, e assinando protocolos de manutenção dos tais serviços, é uma manobra da mais execrável moral e um autêntico acto de terrorismo político, inadmissível num país de Constituição democrática. Mas as razões de tão vergonhosa campanha tem um objectivo: o de criar a sensação de que se está a dar algo às populações. Isto é, primeiro cria-se uma enorme sensação de desespero, e depois vem-se aliviar o mesmo desespero com a notícia de que, afinal, nada de mal acontecerá. Um alívio que é confundido com uma dádiva, quando, de facto, o Governo não se dá nada)

Correia de Campos já não sabe o que diz e muito menos o que faz. O seu descontrolo vai ao ponto de gracejar com os mortos nas estradas, admitindo que se morre menos nelas porque a gasolina está mais cara. Este raciocínio que não lembra ao diabo, faz-me lembrar casos idênticos que, por muito menos, levaram ministros à demissão. Mas Correia de Campos não de demite. Não faz parte do código moral deste Governo que os abusos insultuosos ou que as condutas menos próprias dos membros do Governo seja punidos com a demissão. Mas, por outro lado, Correia de Campos tem a lição bem estudada, lição essa que, sem dúvida, passou pela cabeça de Sócrates. O nosso Primeiro-Ministro já demonstrou a sua enorme aptidão para transformar situações críticas a seu favor, mesmo que, para tal, tenha que utilizar demagogas metodologias antigas e que se julgavam já arredadas das práticas democráticas mas que, afinal, ainda têm o seu préstimo. Uma delas é o pânico, a insegurança, mesmo o medo. A sua imagem de homem inflexível, ajuda. Os portugueses sabem que ele, quando se lhe mete uma coisa na cabeça, não há alma que o demova. E, assim sendo, começando a dizer-se que vai fazer isto ou aquilo, os portugueses sabem bem que o fará. Começou este fadário com a questão das escolas, das maternidades, e agora plantou-se na questão dos serviços de urgência. Isto é: uma dita Comissão, que deveria trabalhar no anonimato, sem burburinho, apresentar o seu trabalho para que, depois, o Ministério fizesse o planeamento geral do país, acabou por transformar um mero estudo numa poderosa arma de amedrontamento das populações. O relatório da dita Comissão foi considerado como lei e divulgado pelos serviços de propaganda do Governo como se já de um projecto definitivo se tratasse. Assim, e ainda antes de o Governo ter estabelecido as alternativas e organizado o mapa integral, já se considerava como facto consumado o encerramento deste e daquele serviço de urgência. O Sr. Ministro deixou que os boatos crescessem tomando posições formais tímidas, numa nítida demonstração da sua cumplicidade perante o que Sócrates estava a tramar. As populações desesperaram, entraram em pânico, chegando mesmo a efectuar manifestações públicas de desagrado com alguma violência à mistura. Estava criado o campo ideal de manobra para que, a seguir, viesse o Ministro dar o dito pelo não dito e estabelecer os tais protocolos com algumas Câmaras que, ingenuamente ou partidariamente, aceitaram as condições do ministério como uma vitória pessoal dos autarcas e como uma dádiva do Ministro. Estavam assim os louros repartidos. Contudo, feitas bem as contas, o Ministério não deu nada. Quando muito, manteve. Mas, perante o desespero que se instalara, soube a dádiva.

Ninguém duvida de que os serviços de urgência necessitam de ser reformulados a nível do país. Há muita coisa no país que tem que ser reformulado. Não se entende é por que razão as coisas não se fazem integradas e por que se andam a reformular serviços de urgência avulsamente, ao sabor de meras conveniências políticas ou, pior, ao sabor das cedências de alguns senhores autarcas. Por exemplo: a Câmara da Régua não assinou o protocolo, e bem. E porquê? Actualmente o Hospital D. Luís possui serviços de atendimento 24 horas por dia. Chamem-lhe ou não urgência, o facto é que se a meio da noite um reguenses se sentir mal, é lá que vai. A proposta do Sr. Ministro de melhorar os serviços de dia e encerrá-los à noite é, a meu ver, inadmissível. Porque não melhora os serviços de dia e os mantém à noite? Isto sim, seria dar alguma coisa à Régua – pouca coisa, acrescente-se – mas já era algo. Diz o senhor Ministro e concorda em coro o PS local (que sobre a matéria tem tomado uma posição execrável), que a Régua nunca teve um serviço de urgência. Pois não. No sentido lato, como seja a urgência médico-cirúrgica, nunca o teve de facto, mas então o que se deve fazer? No mínimo, acho eu, lutar para que a tenha, ou pelo menos que suba um escalão acima do que tem. O que nunca se deve fazer é dar azo à hipótese de nunca a ter! Por isso pergunta-se: que reguenses são estes que em vez de pedirem aquilo que têm direito se limitam a defender as teses redutoras do Ministro? Eu sei que não é usual os socialistas adoecerem de noite, pois, como toda a gente sabe, estão proibidos de o fazerem pelo Ministro. Pelo menos na Régua é assim. Mas, segundo parece, há outros cidadãos, que não têm a felicidade de serem socialistas, e que estão sujeitos a moléstias nocturnas. E a esses, quem lhes acode? Eu tenho cá um plano que talvez resolvesse a questão. Era assim: todos os reguenses se filiavam no PS local e, assim, estavam vacinados contras as doenças súbitas nocturnas. Nesta perspectiva já o sr. Presidente da Câmara poderia assinar o protocolo descansado. Parece ridículo mas não o é porque, neste país, cada vez mais ser-se filiado no PS é um certificado de acesso e protecções. Até médicas, pelos vistos.

A realidade dos factos, contudo, é bem diferente. O país está no caos. Os portugueses vivem dias de apreensão, de grande tensão, de grande incerteza. O futuro apresenta-se negro. Necessitavam-se sim, de políticas serenas, apresentadas para todo o país, devidamente justificadas e com o especial cuidado de evitar as rupturas sociais. E, acima de tudo, de se evitarem situações avulsas de corta aqui, corta ali. Mas, em vez de se seguir uma metodologia de planeamento racional aliado a estratégias de mobilização geral, o que se faz? Lançam-se para o ar atoardas, criam-se confusões em tudo o que é sítio, chegam-se a criar estados de medo que, aliadas às dificuldades presentes, se transformam em verdadeiras fogueiras de desespero público. E isto não é clima de que um Governo se deva orgulhar. É um martírio em cima de martírio. E como não acredito que quem nos governa não saiba destas coisas, não tenho dúvidas que muitas destas situações são premeditadamente criadas. Com o tal objectivo de desesperar para depois vir aliviar. Aliviar sem acrescentar nada. A um doente com dores, a quem se tira as dores (mesmo que temporariamente), se não se curar a moléstia que o atormenta, não se lhe está a resolver nada. Simplesmente a aliviar o sofrimento. As populações do interior, particularmente afectadas por todas as medidas restritivas do Governo, que já pouco possuem e cada vez têm menos, estão em estado de choque. Afinal, não foi nada disto que o Governo prometeu. Não estava escrito no programa do Governo acabar com o interior de vez. Mas, infelizmente, é o que está a acontecer. Porto, Lisboa, Coimbra, etc, estão fora desta confusão. Por lá não há crise: têm hospitais centrais uns em cima dos outros. Sai-se pela porta de um, entra-se logo na porta de outro. Mas aí o Governo pouco mexe. Afinal, é por lá que estão os votos. E precisam desses votos para se elegerem, para levarem a efeito as Otas e os TGVs, para financiarem as clientelas partidárias, para pagarem os salários chorudos dos seus correligionários em cargos públicos, para empregarem os militantes. O que representa a Régua neste mundo eleitoral? Meia dúzia de votos? Então, para quê gastar com ela?

Como já disse em tempo próprio, a Câmara demonstrou num excelente estudo, que o concelho e circundantes cumpriam com as condições mínimas para uma urgência no D. Luís na verdadeira acepção da palavra. Por isso não creio que lhe tivesse sido possível fazer mais do que o que fez. Que mais se poderá fazer depois de se demonstrar que se tem razão? Mas o PS local, ao contrário do PS de outros locais, numa atitude perfeitamente condenável, alinhou pelas teses do ministro e até o deputado regional abençoou a vontade de Correia de Campos. O PS reguense vai de mal a pior, pois de uma coisa tenho a certeza: se o Dr. Vítor Almeida fosse presidente da Câmara, ter-se-ia oposto ao ministro. Ao seu próprio ministro. Não tenho dúvidas de que seria assim que agiria. Porque, é justo que se diga, nem todos os militantes do PS da Régua estão a concordar com este alinhamento da Direcção Socialista reguense. Aliás, a Direcção Socialista concelhia reguense é uma coisa complicada. Muito complicada. Mas lá iremos, mais tarde, não agora que a festa é outra. E tem sido esta falta de unidade política local que tem prejudicado todo o processo. Se a actual direcção concelhia do PS da Régua acha que o Ministério está a propor uma boa solução para a Régua, é lá com ela.

Mas o aviso fica feito: a procissão vai no adro e ainda vão amargar a atitude de subserviência que tomaram.

Digo eu, que não sou bruxo mas sei esperar.