dodouro press

Vamos correr com os arautos da desgraça
Daí que das Adegas Cooperativas que, na vinificação, ainda representam percentagem considerável dos vinhos produzidos na Região e que buscam formas de conseguirem a sua viabilidade económica e da Unidouro, como representante que é de todas elas, se espere que sejam, também, veículos de discussão e aprofundamento desta Proposta apresentada para o Douro.
Mas há que ter plena consciência de que este projecto (ou outro similar) não se implanta de um ano ao outro, nem em dois ou três anos; decidida a fórmula final, paulatinamente (por fases) ela viria a ser posta em execução, não sendo exagero pensar-se em uma década para o seu pleno e normal funcionamento.
Mas que o Douro entraria, ao contrário do que têm vindo a vaticinar alguns arautos da desgraça, numa nova fase de revitalização da sua viticultura, não nos restam dúvidas.
Questão é começar… e aqui está o desafio que alguns, pelo menos, parecem ter ignorado até agora.
Sob o título, "Uma proposta para o Douro" publicou recentemente este jornal um artigo escrito em Julho de 2007, na altura em que a Comissária Europeia tinha acabado de anunciar as grandes reformas para o futuro da OCM, uma das quais (com efeitos imediatos na economia do Vinho do Porto) respeitava ao fim proposto das ajudas à destilação dos excedentes de vinho na Comunidade. Documento esse que, nomeadamente, foi sendo apresentado no Conselho Regional de Vitivinicultores e ainda no Ministério da Agricultura, aqui por intervenção directa do Senhor Governador Civil de Vila Real
Se bem se recordam, propositadamente, chamei àquele artigo "proposta" e não "solução", precisamente porque, tal como se refere no texto, não se trata de um "fato feito", mas sim, de nele procurar equacionar, com base em princípios que se regem pela experiência duriense de décadas no campo da regulação do mercado ao nível da Produção, da sobrevivência da vitivinicultura numa Região de monocultura, de resolver os graves problemas sociais que a afectam e que irão conduzir, inevitavelmente, para a desertificação, com as mais graves consequências no ambiente, na paisagem, na cultura e no turismo despontante, procurar equacionar, dizia eu, um conjunto de propostas para estudo e ampla discussão pelos interessados que pudessem conduzir a uma proposta consensual (incluindo o Comércio) e definitiva.
O pontapé de saída foi dado com a sua apresentação e ,como é comum nestas circunstâncias, há os que criticam, há os que duvidam da sua exequibilidade e há os que nela, como nós, encontram algumas virtualidades.
Por quem concebeu a proposta inicial, nenhuma das três posições é considerada uma ameaça, mas, bem pelo contrário, um desafio que nos obriga a aprofundar o tema e, eventualmente, a buscar outras respostas.
Mas qualquer análise que cada um faça, só poderá ter o devido valor se ela tiver em conta que a Proposta apresentada respeita ao Douro no seu todo. Portanto, mal irá aquele que emita opinião sobre o proposto, raciocinando apenas nos efeitos que a sua aplicação possa vir a ter no seu caso específico.
Com base nos pressupostos apresentados, idealizámos para o Douro, como se recordam, nomeadamente:
1. Obrigatoriedade de utilização de aguardentes da Região na beneficiação do Vinho Generoso, admitindo, todavia, (pelo menos numa fase de transição) poderem estas também ser oriundas das regiões limítrofes produtoras de vinhos que eram designados por vinhos virgens (freguesias dos concelhos integrantes da Região do Douro mas que não pertencem à Região Demarcada);
2. Criação de um Stock Regulador de Aguardentes, com gestão interprofissional que deverá deter, no mínimo, uma vez e meia as necessidades de uma campanha;
3. Definição, em sede interprofisional, para cada campanha, do preço de aquisição de vinhos para destilar;
4. Redução do volume anual de benefício para 90 mil pipas (para as quais serão necessários cerca de 15 milhões de litros de aguardente);
5. Estudo da reformulação da distribuição de benefício pelas diferentes classes, tendo em vista procurar não afectar o rendimento global dos Viticultores por motivo da redução do volume a beneficiar anualmente.
Das previsões possíveis de arquitectar, como resultado da eventual aplicação do proposto, pareceu evidente, logo à partida, poder afirmar-se que a Região, no seu todo vitivinícola, passaria a usufruir de uma receita anual substancialmente superior àquela que recebe hoje; por outro lado, pareceu poder garantir-se, ao vinho não generoso, uma receita anual bastante para a cobertura dos seus custos de produção; por outro lado, a diminuição do volume de benefício anual não corresponde, de imediato, a uma diminuição de receita dos seus produtores; finalmente, pela utilização de técnicas de marketing adequadas, as nossas denominações Porto e Douro veriam a sua fama e prestígio reforçados e valorizados no mercado, pela garantia insofismável da sua total genuinidade, fruto do controle regional.
A questão da exequibilidade do Projecto, face à actual Regulamentação Comunitária, tem sido tema muito badalado. Também nos preocupámos com tal aspecto e por contacto privado com uma individualidade que durante mais de uma década foi o Representante Oficial do Sector Vitivinícola português junto da Comunidade, a quem apresentámos ao Proposta, ficámos perfeitamente cientes de que a implementação de um projecto desta natureza, sob o ponto de vista legal é possível, embora, como nos foi referido, tal deva ser assumido por uma organização representativa dos produtores (ex. Agrupamento de Produtores reconhecido pela Comunidade, sob proposta do Estado Membro).
Ora, tal como nos foi referenciado na altura pelo nosso interlocutor, nesse aspecto, o Douro tem, a seu favor, a história de todo o seu passado norteado pelos princípios de auto-regulação e da existência de uma Organização própria, a Casa do Douro. Embora hoje bastante desvalorizada, quero acreditar que a assumpção, pelos seus Responsáveis, de um Projecto desta envergadura, bem poderia contribuir para ela reconquistar a credibilidade de que já gozou no Sector Vitivinícola nacional e internacional. E, para além disso, muito poderia contribuir para a rentabilização dos seus inúmeros armazéns dispersos pela Região, onde poderia vir a ser armazenado o stock regulador de aguardentes.
Um dos parceiros privilegiados deste Projecto seria, sem dúvida o Sector Cooperativo, desde logo, por representar, no seu conjunto, um volume de produção ainda hoje considerável; por outro lado, por estar ainda ligado a uma grande destilaria da Região – a Subvidouro – que, para total satisfação das necessidades internas, teria de vir a ser redimensionada.
Daí que das Adegas Cooperativas que, na vinificação, ainda representam percentagem considerável dos vinhos produzidos na Região e que buscam formas de conseguirem a sua viabilidade económica e da Unidouro, como representante que é de todas elas, se espere que sejam, também, veículos de discussão e aprofundamento desta Proposta apresentada para o Douro.
Mas há que ter plena consciência de que este projecto (ou outro similar) não se implanta de um ano ao outro, nem em dois ou três anos; decidida a fórmula final, paulatinamente (por fases) ela viria a ser posta em execução, não sendo exagero pensar-se em uma década para o seu pleno e normal funcionamento.
Mas que o Douro entraria, ao contrário do que têm vindo a vaticinar alguns arautos da desgraça, numa nova fase de revitalização da sua viticultura, não nos restam dúvidas.
Questão é começar… e aqui está o desafio que alguns, pelo menos, parecem ter ignorado até agora.
Peso da Régua, 5 de Novembro de 2008
António Mesquita Montes