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Congresso de Vilar de Perdizes questiona aparições de Fátima
No dia de 26 de Agosto findo o JN editou parte deste título a propósito da biografia do Padre Lourenço Fontes, apresentada no primeiro dia de Setembro, durante o XXVI Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes. Foi essa biografia escrita pelo paroquiano do biografado, João Gomes Sanches, docente universitário.
Sanches afirma que o «pai dos Congressos de Medicina Popular e das Sextas-Feira 13 de cada mês», partilha a ideia de que as aparições funcionam como «mecanismo de que a Igreja (católica) precisa para manter a crença dos fiéis». A apresentação dessa Biografia ocorreu na tarde do 3º dia de congresso e coube essa tarefa ao signatário desta nota de leitura que também escreveu o prefácio. Como estivemos presentes nas 26 edições já realizadas, desde 1983, foi uma maneira de, os três, testemunharmos os altos e baixos desta manifestação de cultura popular que colocou Vilar de Perdizes e o concelho de Montalegre no mapa dos grandes acontecimentos nacionais. Outras tentativas ensaiara o clérigo mais conhecido da Região. Mas hoje já não é possível, com a crise que nos bateu à porta gastar em extravagâncias aquilo que faz falta ao estômago. Esta última edição registou menos presenças de «vedetas», de stands e de público, numa clara prova de que urge repensar esta manifestação que ainda hoje reúne estudiosos da antropologia cultural de diversos países, como este ano se viu.
Foram quatro dias de sol ameno e de temperatura agradável que deram para serem abordados temas relacionados com o corpo e com o espírito, ou, como é mais adequado, que misturam religiosidade com paganismo. Foi nesse contexto que o sociólogo de formação João Gomes Sanches entendeu editar uma segunda biografia sobre o Padre que nasceu em 1940 e cedo ingressou no Seminário de Vila Real, sendo colocado em Tourém e Pitões, freguesias raianas, onde o rigor dos invernos e a distância entre elas resultaram numa preparação física, cultural e social que muitos padres nunca experimentaram. Do extremo poente concelhio foi transferido, seis anos depois, para o extremo oriente, igualmente raiano. E foi nesta histórica paróquia que Lourenço Fontes encontrou o espólio físico, cultural e social de outro padre que dera nas vistas pela sua cultura, pela sua propensão para a caça e pelo gosto pelos livros. Chamara-se Domingos Barroso e escrevera o Perdigueiro Português, que o imortalizou.
Lourenço Fontes conseguiu popularizar-se através de um feitio muito seu. Falando pouco mas idealizando muito, gizou coisas consentâneas com a realidade humana e social da região. Não se deixou influenciar pelo snobismo da cidade. Sabia de antemão que estava fadado para servir a terra e as Gentes a que pertencia. Por isso se enquadrou nesse ambiente rural e campesino que enriqueceu através das ideias que entendeu colocar ao serviço de todos.
Foi, simultâneamente, funcionário público, via Segurança Social. Fez uma carreira profissional com o empenho que o cargo exigia. E aprendeu com os erros desse serviço, preocupando-se com a saúde do corpo e da alma.
É de todo este percurso profissional, social, cultural e paroquial que João Sanches fala, com todos os pormenores. Não o faz apenas, exaltando. Acusa-o também de certos desvios ao cânone que professara. Umas vezes desobedecendo à hierarquia, outras vezes revelando publicamente discordâncias com essa hierarquia e até com a própria crença. Nesse contexto aflora João Sanches o cepticismo religioso em relação a fenómenos de fé, como o de Fátima.
Num dos 22 capítulos dessa biografia João Sanches acusa o Padre de ter reservas no aparecimento de Nossa Senhora de Fátima aos três pastorinhos. No capítulo «Controvérsias Religiosas», Sanches começa por dizer que em 1833 houve uma primeira aparição das várias que se conhecem: na freguesia de Calvão, no concelho de Chaves, paredes meias com Meixide. Ficou conhecida pela Senhora da Aparecida. Cita o aparecimento, em Abadia, concelho de Amares. E reporta-se, antes da aparição em Fátima, a Bernardette, em Lourdes (França), que veio a ser canonizada pelo Papa Pio XI.
Como apresentador dessa biografia pude, ali, relembrar uma quinta aparição: na freguesia de Folhada, concelho de Marco de Canaveses. Foi em 13 de Maio de 1757. Essa aparição de Nossa Senhora a 3 pastoras, 160 anos depois de aparecer em Fátima, vem descrita nas Memórias Paroquiais de 1758, coordenadas pelo Prof. José Viriato Capela e Henrique Matos, da Universidade do Minho. Tudo se passou dois anos depois do terramoto de 1755. É um relato, quase ipsis verbis, com o de Fátima, mas 160 anos depois. Foi escrito pelo pároco de Folhada dessa altura chamado José Franco Bravo, Insuspeito, portanto. O leitor mais interessado poderá, via- internet, consultar o V volume, dedicado às freguesias do distrito do Porto. Deverá chegar à Abadia de Folhada do Padroado, Bispado do Porto, Comarca de Sobre o Tâmega, concelho de Gouveia. Numa próxima nota tentarei esclarecer esta hierofania, gémea de várias outras. Quero deixar claro que sou crente e, não sendo dogma de fé, acredito em milagres.
Barroso da Fonte, Dr.