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História e Património da Santa Casa da Misericórdia de Vila Real
A Santa Casa da Misericórdia de Vila Real, fundada nos inícios do séc. XVI, é um centro de saber que esteve oculto até que os seus actuais gestores entenderam fazer desse manancial de informação (quase perdida), relatórios científicos que têm vindo a difundir em obras que enchem de orgulho os seus organizadores, enriquecem o património construído e, sobretudo, valorizam cinco séculos de esforços humanitários, prestados às sucessivas gerações da cidade e da região. Era necessário coligir essa história silenciada, exaltar os seus méritos e fazer justiça a quem, silenciosamente, serviu tão nobres causas.
Tive a sorte de receber, como já acontecera com outro volume anterior, um tomo de grande qualidade gráfica que foi coordenado por Fernando de Sousa e por Natália Marinho Ferreira – Alves. Chamaram-lhe A Santa Casa da Misericórdia de Vila Real – História e Património. Nas abas da sobre-capa explicam as origens, os objectivos, os contributos à Região e, sobretudo, os serviços humanitários e sociais que tão benemérita Instituição operou no seu já multissecular historial. Ai se diz que esta obra se encontra dividida em duas partes. A 1ª diz respeito à História da Misericórdia de Vila sob o ponto de vista institucional. Na 2ª parte, relativa à arte e património da Santa Casa, analisa-se o património imóvel, a sua construção, evolução e constituição.
Inventaria-se e contextualiza-se o seu património móvel, constituído por pintura de retratos, pintura religiosa, escultura, têxteis e paramentaria, ourivesaria, talha, equipamentos e utensílios, objectos que irão integrar o Museu e o Portal Digital da Instituição. Insere-se uma ampla relação das fontes e bibliografia consultadas, um resumo da obra em inglês e um índice analítico. A importante obra é acompanhada de um CD-ROM que permite consultar um conjunto de anexos com diversos documentos e quadros que muito ajudam a compreender a história da Misericórdia da capital do distrito de Vila Real. Na 2ª aba se escreve que tão notável trabalho só foi possível graças ao CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade, criado em 1990 pela Universidade do Porto e pela Fundação Engº António de Almeida. Esse Centro está instalado num edifício autónomo daquela Universidade e passou a ser uma unidade de investigação desde 1996, no âmbito da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, agregando investigadores de diversas universidades e outras instituições de ensino superior, públicas e privadas. Conta até ao presente com mais de 350 associados, 120 dos quais são doutorados. Neste volume, além dos coordenadores, intervieram mais os seguintes: António Mourato, Bruno Rodrigues, Diogo Ferreira, Joana Martins, Joaquim Jaime B. Ferreira – Alves, José Francisco Queiroz, Manuel Couto, Manuel Silva Gonçalves, Manuela Pinto da Costa, Maria de Fátima Eusébio, Paula Barros, Paula Cardona, Paulo Amorim, Paulo Guimarães, Ricardo Rocha e Susana Oliveira. Esta admirável obra é dedicada a Pedro de Castro, fundador da Igreja da Misericórdia de Vila Real, a Francisco da Silveira Pinto da Fonseca e aos irmãos Rodrigues de Freitas, fundadores e protectores da Divina Providência da Misericórdia de Vila Real.
O Padre José Joaquim Dias Gomes, Provedor , assina as palavras iniciais da p. 7.Nelas explica a «sensação» que sentiu quando chegou «ao interior dessa Instituição e deparou com montões de livros e papéis soltos. Deixou-nos espantados, perplexos, confusos...Mas, depois, compreendemos: tudo isto foi por motivo de obras recentes e também por desocupação apressada de antigas instalações do Hospital» – confessa o Provedor que prossegue: «Pouco a pouco, desfeito o impacto inicial, começámos a pensar que, para além das obras da Misericórdia escritas no nosso programa de acção, teríamos outra obra que, antes de ser de misericórdia, é de justiça: trazer a público o nome de tantas pessoas que doaram o seu tempo, a sua vida e, até os seus recursos, ano a ano, para que a Misericórdia de Vila Real subsistisse no meio das maiores dificuldades, através dos «desertos» de cinco séculos de existência».
É com emoção que se lêem estas explicações de um Homem que nasceu em Ribeira de Pena, que rumou ao Seminário de Vila Real e aqui instalou o seu quartel-general nesta nobre cidade que vale por esta e outras Instituições de referência locais, regionais e nacionais. Porque uma cidade não vale apenas por aquilo que tem em dado momento. Vale também por aquilo que ensina, que incute e que cada um dos seus caminheiros leva pela Diáspora da vida desses promotores de progresso incessante.
Revejo-me nesse grupo de caminheiro educados em Vila Real, ao lado de muitos milhares que desde os inícios do século XVI, na Misericórdia, no Hospital, no Seminário, no Liceu, nos colégios, beberam a seiva do bem-fazer por eles e pelos outros.
Esta monumental obra de vários, serve de incentivo a muitos que, «ao verem montões de livros e papéis soltos...» sendo mais cómodo queimar tudo isso numa lixeira, reduzindo a «História» a cinzas, fazem ou deviam beber neste exemplo vivo da Provedoria presidida pelo Padre José Gomes.
Pela parte que me toca, como cidadão agradecido, abraço essa equipa de Gente que sempre viveu para os outros e que troca o seu comodismo pela preservação, reconstituição e dignificação do património colectivo, móvel, imóvel. São estes os ingredientes do progresso e do futuro dos povos.
Barroso da Fonte, Dr.