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Os Bombeiros de palanque
Todos os anos, com a chegado do calor, chega também, ( e este ano em força), a praga dos incêndios, a azáfama dos bombeiros, a balbúrdia dos comentadores de palanque, as tradicionais críticas a eventuais falhas de actuação dos coordenadores e operadores no terreno e as perguntas, (de quem quer alhos num campo de cebolas ), dos (das)jornalistas.
As perguntas da CS aos bombeiros durante os incêndios, quantas vezes distraindo-os do trabalho que estão a fazer, versam normalmente, ( com a intenção de espelhar as brasas), sobre se os meios disponíveis são suficientes, se determinado incêndio foi casual ou intencional, se demora muito a apagar, quantos homens e veículos estão no terreno, etc..
Há já algum tempo, uma jornalista, à procura de entabular uma conversa para uma reportagem, perguntava ao comandante duma corporação que orientava as operações no combate a um incêndio, se já sabia se se tratava ou não de fogo posto; ao dito comandante, que por acaso era um militar, ouvi pela primeira vez a resposta mais adequada que deveria ser, e foi dada num caso destes: «Estamos aqui para apagar o incêndio; o resto é com a polícia»! A jornalista engoliu em seco e retirou-se.
Um incêndio não é um acontecimento talhado a régua e esquadro, não tem forma física nem limites de actuação predefinidos, não tem açaimes nem freios, não têm tempo de duração estipulada, não tem espaço atribuído, não tem caminho definido nem direcção certa, nem tão pouco vontade própria!
Normalmente, os fogos têm um aliado de peso, que é o vento. E, quando se juntam, pintam a manta; são imprevisíveis, desafiam quem se lhes mete no caminho, tornam-se um quebra-cabeças para quem queira travar-lhes o passo, quando não matam os aventureiros que descuidadamente lhes fazem frente.
No entanto, ouvem-se a cada passo lamentos e remoques contra o mau desempenho dos coordenadores da protecção civil, acusando-os de terem falhado e, consequentemente, a razão para se inquirir, responsabilizar e naturalmente criar hipotéticos culpados, pelas eventuais falhas ocorridas.
Evidentemente que o combate aos incêndios, devido a circunstâncias e/ou contingências várias, é susceptível de falhas. Porém, por respeito `para com aqueles que arriscam a suas vidas para salvar os bens e as vidas dos outros, as falhas, se é que as houve, não devem ser discutidas na praça pública, como estão a fazer agora, devido a eventuais falhas cometidos durante a elevada vaga de incêndios ocorridos recentemente um pouco por todo o País.
Infelizmente, no dia 09 deste mês de Agosto, no cumprimento do seu lema, «Vida por vida» registou-se a morte de um bombeiro, precisamente um dia depois do 59º aniversário da morte do nosso conterrâneo João Figueiredo, então bombeiro da Associação dos Bombeiros do Peso da Regua, quando procedia à salvação de bens que não eram seus, naquele fatídico dia, oito de Agosto de 1953, no incêndio da antiga Casa Viúva Lopes.
Não sei se nesta vaga de incêndios há ou não motivo para imputar responsabilidades seja a quem for, nem sei se os denunciantes alguma vez assistiram ao estalar aterrador das labaredas, quando uma rabanada de vento as empurra, contra uma pira de lenha seca, ou até contra um silvado encostado a uma parede.
Tanto os bombeiros, como os coordenadores e respectivos comandos, certamente procuram fazer o melhor possível mas, como disse, são as circunstâncias que ditam o caminho mais prático para apagar um incêndio e não são os bombeiros de sofá, onde é fácil traçar o cenário imaginário dum incêndio, que têm competência para apontar falhas a quem no terreno, lutando contra todos os contratempos, tudo procura fazer para cumprir os ditames duma instituição que abraçou voluntariamente; e é de bombeiros voluntários que estou a falar.
Hoje, não sei: mas, sou sócio dos Bombeiros Voluntários da Peso da Régua há mais de 50 anos, e quando me associei, fi-lo, porque, na altura, os bombeiros da Régua eram uma comporão das melhores, senão a melhor corporação do norte de Portugal, e era o orgulho da vila e da maioria dos habitantes do concelho.
E por isso, há três coisas que eu não gosto de ver relacionadas com os bombeiros: Não gosto da perniciosa infiltração dos políticos, nas corporações de bombeiros; não gosto que a comunicação social, num incêndio, distraia os bombeiros com perguntas de saca-rolhas, nem gosto de ouvir criticá-los gratuitamente na praça pública.
Tenho dito!!

José O. Guerra