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Uma guerra por herança
A resignação de Francisco Louça à liderança do Bloco de Esquerda, terá sido, pelo menos aparentemente, uma decisão natural. Porém, o facto de (segundo se ouve dizer) ter imposta uma liderança com duas personalidades para lhe suceder, (a chamada liderança bicéfala), terá causado alguma perplexidade a muitos políticos, (porque não é uso fazê-lo pelo menos num sistema democrático, que no dizer do partido é o seu), a contestação de alguns membros do próprio partido, e alguma estranheza na opinião pública.
Por mais remota que possa parecer, no ar ficará a pergunta: a resignação de Louçã à liderança do BE, não será um ensaio para partir para voos mais altos? Um hipotético embarque para terrenos do Partido Socialista, por exemplo, como fez Acácio Barreiros ao deixar a UDP? Porque temerá que o destino do BE possa, mais tarde ou mais cedo, ser o mesmo da troika partidária que lhe deu origem? Porque o partido se cansou dele ou ele do partido? Ou, porque atendendo ao seu vasto currículo, se sente na pele de um condor num ninho de pintassilgos?
Evidentemente que falo de hipóteses conjecturais, porque, nestes casos, a verdade tarde ou nunca vem ao de cima. Todos os partidos são lestos a denunciar o que se passa nas outras facções, mas o que se passa nas suas, moita-carrasco!
Eu chamei-lhe Troika, porque, como é sabido, o Bloco de Esquerda resultou da união de três pequenos partidos, que com o passar do tempo se esfumaram: a União Democrática Popular, (UDP), de ideologia marxista-leninista, liderada pelo já falecido Acácio Barreiros, angolano de nascimento, que em 1979 o abandonou, tendo depois ingressado no PS, do qual foi deputado; a Frente Socialista Revolucionária, (FSR), antes Frente de Esquerda Revolucionária, (FER), de origem trotskista, liderado, salvo erro por Francisco Louça; e a Política XXI, uma espécie de partido híbrido, formado por dissidentes do PCP, da chamada Plataforma de Esquerda, pelo MDP/CDE e vários outros pequenos partidos de crenças diversas, mais ou menos ramificadas na ideologia comunista!
Para quem não saiba, e serão muito poucos aqueles que não sabem, a palavra troika é de origem russa, definindo o nome de um trenó puxado por três cavalos; mais tarde a palavra acabou por ser adaptada para definir conjuntos de três coisas, organismos, pessoas etc., que em Português quer dizer trio. Já agora, lembro que em português, um carro puxado por três cavalos, é uma Triga!
Como em Portugal a pompa e a circunstância e tudo o que é estrangeiro é que é bom, logo tinham que ir à Rússia buscar a troika, para determinar o nome do trio que nos vai ensinar, como se gere a economoia num País de estroinas
Na Rússia, antes da troika que deu origem desmantelamento a URSS, depois da morte de Lenine teve lugar a troika Zinoviev, Kamenev e Estaline, para enfrentar Trotsky, que acabaria por ser barbaramente assassinado a 20 de Agosto de 1940, no México, por um espanhol às ordens da dita troika, de quem o assassino era agente secreto, sendo por isso condecorado em 1961 como herói nacional da União Soviética.
Talvez se encontre aqui, uma das razões, porque o Bloco de Esquerda não vai à missa com o PCP, nem este à missa com aquele.
De qualquer forma, Louça vai-se, mas poderá deixar aos que ficam, uma guerra por herança. Penso eu, não sei, mas a artilharia, parece que já está assestada. Pode ser que não seja nada!

José O. Guerra