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Alta Corrupção?
Quando naquela manhã de 25 de Abril de 1974, pela leitura dos jornais que nos chegavam (havia uma edição vespertina para complemento de informação) ou pelas notícias que iam surgindo na Rádio e RTP, tomei conhecimento que os Capitães tinham feito a Revolução dos Cravos, com o fim de depor o anterior regime, acabando com a ditadura, e instituir uma democracia, regozijei de contentamento.
Pensei que o país iria ser mais solidário e com menos disparidades, com oportunidades para todos os cidadãos, com direito a salários mais justos, onde não houvesse a exploração do Homem. Um país que não deixasse engordar só um grupo de papões, enquanto outros vivem na adversidade, com salários miseráveis, o que acaba por permitir que os ricos sejam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
Pensar, pensei, mas não se cumpriu a intenção, já que os exemplos sinuosos na democracia são muitos e aberrantes. Há uma continuidade de factos, que não abonam em benefício dos políticos, que, salvo raras e honrosas exceções, não deixam de ser umas sanguessugas, chupando o sangue ao povo fragilizado.
A classe política deste país está bem de saúde económica e espera pela nova oportunidade para sugar. Poucos são os que não engordaram financeiramente! Estão em fila, na esperança de alcançar os seus proventos, pois só assim conseguem lucros e benesses que nenhum dos comuns mortais alcança.
Depois queixam-se que o Bispo Januário diga que "há jogos atrás da cortina, habilidades e corrupção". Quem não quer tempestades, não pode semear ventos!
Nestas irregularidades detetadas e nas corrupções e branqueamentos de dinheiro, exponho três casos que irão dar muita matéria para debate.
Primeiro - A aquisição dos dois submarinos, pelo então ministro do Ministério da Defesa, Paulo Portas, gerou alguma polémica, pelas irregularidades que foram surgindo. Falou-se muito sobre o assunto, confirmaram-se fraudes fiscais e contrapartidas retiradas, que lesaram o Estado em milhões de euros.
No país onde se realizaram os contratos e o fabrico do material, houve uma ação judicial e penalizaram os responsáveis pela corrupção e branqueamento, é aquilo que se vai sabendo, mas em Portugal andam a ver se vale a pena avançar com o processo.
Houve, inclusive, um almirante que recebeu um milhão de euros, como luvas, e que teve permissão para transferir tal verba para Portugal, sem que tivesse que pagar impostos.
Nestes últimos dias soube-se que desapareceram os documentos no Ministério da Defesa, referentes ao negócio da compra dos submarinos. Pasme-se de espanto …
Porque desapareceram tais documentos? Será que com esse material se descobriria a fraude feita?
Sabemos que Paulo Portas, então ministro da Defesa Nacional, fotocopiou milhares de documentos, logo, não deve estar alheio a todo este estratagema. Porque se mantém tão silencioso o ministro de outrora e atual ministro dos Negócios Estrangeiros? Atendendo à gravidade dos factos, penso que Portas deve dar uma explicação aos portugueses, porque toda esta cena é de uma deslealdade criminosa e um atentado traiçoeiro ao país.
Segundo - Na compra de 12 helicópteros, segundo a auditoria do Tribunal de Contas, há "uma situação de descoordenação e ineficácia" entre as instituições envolvidas, o que implicou um agravamento de 120 milhões de euros, no custo final da aquisição de tal material militar. Falhas graves na verificação das contas, com faturação em duplicado, que ascendem aos 1,1 milhões de euros.
Não haverá uma intenção sub-reptícia neste descuido todo? Não será para que alguém possa reembolsar alguns "cobres"?
Tudo isto é só mais um caso deste Portugal democrático, onde se desvia (não é roubo) aos milhões e nunca ninguém é penalizado, nem tão pouco aparece um responsável pelo ato.
Terceiro - O Pavilhão Atlântico, anunciado nas TVs, foi vendido a Luís Montez, genro de Cavaco Silva. Pode dar-se o caso de não ter havido irregularidades, favorecimentos ou benesses, mas fica sempre a dúvida.
Reconhecendo-se a instigação que o governo tem mostrado com truques e astúcias em determinadas áreas (nada indicava que o pavilhão tivesse que ser vendido), não terá sido a melhor atitude vender o bem ao familiar de Cavaco, que tem situações fiscais com uma fraca clarificação e a própria ligação ao BPN também não está plenamente esclarecida.
Para fechar com chave de ouro todo este processo, o Governo vendeu, ao genro do Presidente, por cerca de 21 milhões de euros, uma obra que custou ao Estado, há uma dezena e meia de anos, 55 milhões de euros. Este negócio efetuado não dá para questionar/duvidar?
Teria sido muito mais edificante para a nossa democracia que negócios deste teor não se concretizassem, e que os valores em jogo se reconsiderassem e não fossem tão baixos. Dessa forma é que se corroborava a transparência política e governamental, pois fica-nos a ideia de que neste país há os que sofrem com a austeridade, enquanto outros enriquecem com a crise.
Enquanto todas estas situações proliferam, a escalada do desemprego continua em grande, os economistas continuam a acreditar que a economia não terá um crescimento real nos próximos tempos e o Governo não chega a vislumbrar políticas ativas de emprego.
O portuguesinho, os mesmos de sempre, lá vai ter que gemer com mais impostos!

Adérito Rodrigues, Prof.