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A françuguesa
A tarde estava quente! Eu e o Manuel tínhamos decidido não seguir diretamente para a praia. O dia convidava a uma boa tarde de praia, mas mesmo assim, pretendíamos cumprir um pouco desse período na esplanada do bar, que dá assistência ao espaço balnear.
As famílias tinham seguido para o areal e deleitavam-se expostas ao sol. Fomos cavaqueando e bebendo o fino, atendendo ao calor daquela tarde.
Entretanto e porque já estávamos cansados da esplanada, abandonámos o local e caminhámos um pouco pela avenida principal. A aragem marítima estava agradável! Ali andámos durante um bom bocado de tempo a tirar a água à nora, como diz o povo, de um lado e para o outro, até que o Manuel se lembrou de irmos até à barraca, a fim de nos juntarmos às famílias. De chinelos debaixo do braço, aí fomos nós, lentamente, pisando o areal a caminho da barraca 8, na fila 3.
Fomos andando, cumprimentámos certas pessoas já um pouco familiares, até que chegámos ao nosso "porto", as barracas de cada uma das famílias.
Como o calor era demasiado e para não estarmos fechados debaixo dos panos, decidimos até à beira-mar, próximo da rebentação das ondas, que por sinal eram poucas e fracas, mantendo-nos com a água a molhar os pés.
Para não estarmos continuamente de pé, optámos por nos sentar um pouco acima da rebentação das ondas e ali estivemos durante algum tempo. Verificámos que próximo de nós se sentaram duas senhoras, cujos maridos se despediram e caminharam pelo areal fora. Provavelmente foram cumprir a tarefa que nós já havíamos realizado, beber algo fresco.
Ali estivemos e apercebemo-nos que os dois casais, com três crianças, falavam uma língua estrangeira – o francês. As crianças iam-se mantendo por ali perto, ora indo à água, ora regressando ao areal, para junto das mães.
As senhoras começaram, entretanto, a facilitar, um pouco, as entradas no mar e as crianças saltavam para a rebentação das ondas, o que, não sendo grave, criava alguma confusão a uma das mães. Uma onda mais forte obrigou os miúdos a fugir e a criar alguma expetativa nas progenitoras. Uma delas deu-lhes um berro, mandando-os sair da água, para virem mais para a beira,.
Pareceu-nos que, naquele "viens ici, Michel", algo soava a falso, um francês tremido, sem a pronúncia própria do idioma. Na conversação notava-se que o linguajar não era fluente, havia algumas oscilações e certas palavras eram pronunciadas quase em português. A lentidão com que falavam, para escolher as palavras (léxico), denunciava, perfeitamente, a anormalidade.
Nós continuávamos a nossa cavaqueira, alheios às brincadeiras das crianças e à conversa afrancesada das duas senhoras. Os gritos apelativos, para que os miúdos não entrassem tanto na água, eram constantes. Criança é teimosa, não obedece e acaba por criar preocupações aos adultos, que tomam conta delas.
Entretanto, o mar, devido à chegada da preia-mar ou por natureza própria, começava a ter uma rebentação maior e a subir, gradualmente, pelo areal. Um dos miúdos, o mais ousado, levou uma "pranchada" e veio enrolado, pelo areal fora, embrulhado na onda. Uma das mães saiu, de imediato, a reclamar com a criança e exigia a saída da água, que regressasse para junto delas, só que, desta vez, a françuguesa, não se expressou na língua que até então tentava falar.
Na aflição despejou: "ah, ca....., eu fo...te se não sais da água!".
A senhora, dada a angústia, quebrou o verniz e praguejou em português! As pessoas entreolharam-se e nada disseram, mas o meu amigo, castiço como é, quando ouviu o vociferar daquela concidadã, no seu tom irónico, que lhe é peculiar, disse em voz alta:
- "Ah ca….. , a francesa sabe os palavrões em português!"
A senhora, bem como as restantes pessoas que por ali estavam, olharam para o meu amigo e os veraneantes presentes mostraram estupefação no olhar, enquanto a mãe em causa ficou vermelha como um pimento e deu sinal de que se apercebera que tinha pisado o risco.
O pessoal à volta ficou a entreolhar a senhora e o Manuel. As duas mulherzinhas, perante o fiasco que uma delas tinha dado, levantaram-se, puxaram as crianças pelos braços, pegaram nas toalhas e abandonaram o local.
Alguns homens, que por ali andavam e apreciaram a cena, deram um ar de sorriso, alguns até de um sorriso maroto, perante a atitude petulante da françuguesa
Com a abalada das duas emigrantes, o Manuel deu uma gargalhada profunda, pelo forma ridícula daquela gente. Decidimos regressar à barraca e o Manuel lá contou a história aos elementos aí presentes.
Riu-se a bandeiras despregadas e a mulher rematou:
- "Tu tinhas de dar a tua farpada! Só mesmo tu!"
- "Foi a francesa, mulher! Foi a francesa …!"