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Os protestos contra os governantes
Todos conhecemos hoje bem a terrível má vontade da grande maioria dos portugueses contra a política deste Governo, de Pedro Passos Coelho, e, naturalmente, também contra os seus executores. Uma realidade que deriva, sobretudo, de dois fatores principais: as promessas não cumpridas e a muitíssimo má e injusta distribuição dos sacrifícios pelos portugueses, com uma minoria sempre bafejada e continuando a ganhar milionariamente, e com a maioria a atingir uma situação já do tipo terceiro-mundista.
Ora, tal como eu escrevi há já muito tempo, o atual Governo só consegue manter-se por via da polícia e, em última análise, da própria força militar. É verdade que acedeu ao poder por via de eleições livres, mas também o é que quase nada cumpriu do que andou a prometer aos portugueses, por esse País fora, durante a última campanha eleitoral. Ou seja: a sua legitimidade é hoje meramente formal, mas não se suporta no apoio de uma real maioria de portugueses.
Dizem agora os governantes que as manifestações contra si são organizadas pela CGTP. Bom, é muito provável que seja assim, mas a verdade é que aquela organização não protesta por serem doidos os seus dirigentes. Fá-lo porque o Governo de Pedro Passos Coelho, paulatinamente, tem vindo a destruir a felicidade mínima de milhões de portugueses.
Uma coisa é se é a CGTP a organizar as referidas manifestações, outra, a de saber se essas circunstâncias apresentam, de facto, uma representatividade profunda junto de uma imensidão de portugueses, que é o que realmente tem lugar. Basta olhar à volta de cada um de nós, para se verificar que o atual Governo tem hoje, junto dos portugueses, a imagem de um eucalipto: seca todo o apoio à sua volta, raríssimos se atrevendo a defender a sua política e poucos assumindo uma atitude de apoio.
É verdade que as manifestações não têm mais de uma ou duas centenas de concidadãos nossos, mas também após a descolonização os portugueses se comportaram – mais de seiscentos mil…– como uns cordeirinhos: faziam, aconteciam, mas logo nada se passava. Um silêncio sepulcral. Um abandono das nossas províncias ultramarinas verdadeiramente singular: nem um tirinho!
Os mais velhos, que estejam a par da crise académica do início da década de sessenta, sabem bem o que então se deu: depois de uma ação estudantil fortíssima, que acabou por levar à saída do próprio ministro, chegado o momento da decisão sobre a ida, ou não, aos exames, lá triunfou a ida aos mesmos… O que não significa que os do sim e os do não estivessem desirmanados no protesto contra o diploma legal publicado.
O que estas manifestações realmente mostram é que os portugueses estão fartos deste Governo de Pedro Passos Coelho, que outra coisa não tem feito a não ser destruir-lhes a esperança no futuro, pela delapidação do que dispunham – e era pouco – até há menos de um ano. É o preço que a cada um se impõe quando se percebe a desilusão de se ter olhado a realidade como simples ilusão.

Hélio B. Lopes, Dr.