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Dois políticos com razão
Com uma cadência que é diária, a verdade é que à medida que o Mundo, sob muitos aspetos, vai de mal a pior, também nos vão surgindo mil e um políticos a proferir as afirmações mais diversas, como agora se deu com Hugo Chávez e com Nuno Crato. No primeiro caso, com uma pleníssima razão, o que seria sempre fácil de conseguir. No segundo, sem qualquer razão, por se ter determinado a deitar mão de um argumento que sabe muitíssimo bem não ter validade.
O que foi, então, que nos veio dizer Hugo Chávez? Bom, esta evidência, tão bem conhecida da generalidade dos portugueses: aplicaram uma dose excessiva de capitalismo, deixando que os mais fortes destruam os mais fracos. Percebe-se o que pretendia dizer o presidente venezuelano, embora a expressão, muito usada na sua parte final, não corresponda inteiramente à realidade que está em jogo.
É verdade que o capitalismo – o neoliberalismo – tem sido usado de um modo descomunal, o que ficou a dever-se ao fim do comunismo. Mas tudo poderia ter sido diferente se os partidos que se dizem defensores do socialismo democrático não tivessem deitado para o caixote do lixo o ideário que sempre brandiram ao longo dos anos.
Mas onde Chávez já não tem razão é quando diz que tal prática levou a que os mais fortes destruam os mais fracos. E isto porque o que está em jogo não se prende com fortaleza e com fraqueza, mas com ter uma moral humanista cristã ou não a ter. E o que triunfou no Mundo atual foi, precisamente, a ausência de princípios ligados a essa moral: passou a contar não a vida, como um valor de natureza transcendente, mas sim o dinheiro e a riqueza.
Em contrapartida, com Nuno Crato a situação foi a inversa da que teve lugar com o líder da Venezuela. Perante as patéticas afirmações de jornalistas e sindicalistas – em especial, os primeiros –, sobre vitórias e derrotas com a colocação de professores sem horário zero, o ministro veio agora salientar que a contestação dos professores nem foi assim tão grande. Bom, caro leitor, é caso para se dizer: this is incredible!
De um modo algo inacreditável, Nuno Crato parece crer que os contestatários ao nível dos professores se ficam pelos que ali estiveram naquela manifestação, recusando perceber que a generalidade dos seus colegas do ensino não superior de há muito percebeu que o que se vem passando em matéria de Educação, para lá de uma boa dose de balbúrdia, é um mecanismo recorrente, permanentemente gerador de incerteza e de ansiedade. Incerteza e ansiedade que contaminam família e amigos. Uma onda avassaladora, cujo valor só a ausência de eleições permite não pôr à vista de todos. Tivessem elas agora lugar, e o PSD ficaria reduzido à míngua que merece! Ou antes: talvez ficasse mesmo aquém dessa míngua…
Por fim, uma nota breve, mas que é realmente importante. Se Álvaro Cunhal estivesse hoje ainda na nossa companhia, e se determinasse a falar da atual ação política de Nuno Crato, inserida na deste Governo neoliberal de Pedro Passos Coelho, talvez dissesse assim ao entrevistador: eu bem chamei a atenção dos riscos inerentes à pequena burguesia de fachada socialista…

Hélio B. Lopes, Dr.