dodouro press

Entre o que parece e o que é
Lá encontrei, na INTERNET e com grande facilidade, a entrevista de Zita Seabra à SIC Notícias, no noticiário das 22.00 h, onde dialogou com Mário Crespo. E pude assim constatar o modo extremamente superficial, mesmo impreciso, sobretudo derivado de uma impressão pessoal em nada suportada em factos materiais, ou mesmo revelados por quem quer que tenha sido. No fundo, uma atitude que deriva do modo extremamente estranho e singular de Zita Seabra aceitar a desvinculação do PCP.
Mas pude ouvir, por igual, a entrevista concedida a Mário Crespo por Alexandre Alves, onde o que se passou foi, precisamente, o contrário: clareza em tudo, sempre citando nomes, países, bancos, empresas e marcas, referindo mesmo que a própria Presidência da República, ao tempo de Mário Soares, nunca levantou quaisquer obstáculos aos aparelhos de ar condicionado, então produzidos pela FNAC. Uma realidade, de resto, completada com o convite que lhe foi formulado por Mário Soares para membro de um dos órgãos da fundação a que preside.
Sobressaiu também da entrevista concedida por Alexandre Alves a Mário Crespo o que, uns dias antes, numa outra entrevista, mas com Henrique Neto, havia sido referido pelo velho e politicamente inexperiente socialista democrático-neoliberal-empresário-aposentado, a propósito da RPP: como ali explicou Alexandre Alves com inexcedível clareza, nada se passa como referiu o histórico e politicamente inexperiente socialista democrático-neoliberal-empresário-aposentado.
O que de interessante se retira destas três entrevistas – mais das de Henrique Neto e de Zita Seabra – é o modo como a televisão projeta como realidades factos imprecisos, expostos por pessoas que nem sequer os garantem na própria entrevista, limitando-se a apresentá-los como meras impressões pessoais, sempre na base daquela pré-posição do eu não sei, mas tudo me faz crer que!
Estou hoje profundamente convicto de que uma das razões da decadência do valor da democracia em Portugal durante o tempo da III República assenta no pernicioso papel das televisões, embora, como é evidente, também de uma boa imensidão dos ali entrevistados. E isto porque se concede tempo de antena a quem nem sequer conhece com precisão o tema sobre que está a ser entrevistado, limitando-se a expor impressões pessoais. Impressões que, por vezes, se vêem cabalmente desmentidas pelos visados naquelas conversas suportadas no simples parece-me. E o que estas três entrevistas mostraram foi o abismo que separa o que parece a alguns entrevistados e o que realmente se passa com os visados.
E já agora, e mesmo para terminar, uma pergunta muito oportuna: não conseguirá o nosso jornalismo televisivo de investigação – existirá? – descobrir a causa do desaparecimento dos documentos ligados ao caso dos submarinos, nos termos do noticiado neste sábado? Isso sim, é que seria um excelente trabalho de investigação jornalística!

Hélio B. Lopes, Dr.