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O surreal no Portugal de hoje
Na noite desta quinta-feira fui alertado pelo telefonema de um amigo meu, dando-me conta de uma notícia a sair na edição de sexta-feira do Diário de Notícias, onde Zita Seabra fará referência a uma possível utilização, por parte do PCP, nos idos anos oitenta do passado século, dos aparelhos de ar condicionado fabricados pela FNAC, então liderada por Alexandre Alves, na altura também membro do PCP. Aparelhos que, no dizer das palavras da antiga comunista, estariam colocados por tudo o que eram ministérios, sítios nevrálgicos e órgãos do poder, e que usariam tecnologia oriunda da antiga Alemanha Oriental.
Se o meu amigo explicou bem, Zita Seabra terá concedido uma qualquer entrevista à SIC Notícias, mas logo salientando esta realidade: não posso afirmar que tive conhecimento de que estavam microfones em qualquer ar condicionado, mas posso dizer que era uma empresa obviamente estratégica para o PCP e para a República Democrática Alemã.
Esta afirmação é deveras importante, porque encerra em si o valor a dar a esta suspeição apresentada como uma verdade insinuada. Por um lado, Zita Seabra não pode afirmar que teve conhecimento – provavelmente, direta ou indiretamente – de que estavam microfones em qualquer ar condicionado. Mas, por outro lado, salienta que a FNAC era uma empresa obviamente estratégica para o PCP e para a República Democrática Alemã.
A primeira parte da conversa mostra que as palavras de Zita Seabra se ficam pela zona do parece-me, uma vez que nunca teve qualquer conhecimento – supõe-se que direto ou indirecto – sobre o caso. Mas a segunda parte levanta esta questão: porque é que a FNAC era uma empresa obviamente estratégica para o PCP e para a República Democrática Alemã? A uma primeira vista, nem Zita Seabra nem quem com ela tenha falado na tal entrevista da SIC Notícias se preocupou em explicar, ou perceber, esta conclusão.
O interessante desta entrevista liga-se ao posicionamento atual noticiado por parte da nossa grande comunicação social, a cuja luz Zita Seabra estaria hoje muito próxima da Opus Dei, se é que não mesmo já membro da prelatura. Embora, há que reconhecer, estas palavras recentes estejam ligadas ao que há pouco se passou com Alexandre Alves e com o empreendimento que o Governo de Pedro Passos Coelho pôs há dias de lado.
Acontece, porém, que Zita Seabra dá uma credibilidade a algo que terá sempre desconhecido, mas porá completamente de lado o que nos contou do interior da Opus Dei, Maria del Carmen Tapia, que conheceu pessoalmente o fundador da instituição e com ele trabalhou diretamente, durante muitos anos. E quem diz Tapia, diz todo o razoável conjunto de membros da prelatura que de lá saíram contando coisas extremamente desagradáveis.
Mas admita agora o leitor que ainda por aí existam aparelhos colocados pela FNAC, nesse tempo já longínquo, em algumas das instituições referidas por Zita Seabra. E admita que a Procuradoria-Geral da República, por via da investigação que possa mandar fazer ao caso, encontra em alguns desses aparelhos alguns outros destinados a operar escutas. A questão que se levanta passa a ser esta: quem nos garante que esses aparelhos, hoje obsoletos e já sem estarem a funcionar, não foram lá colocados para inculpar o PCP destes dias, cuja ação tanto incomoda os poderes da atual maioria? Pois, a resposta é simples: ninguém. E quem se não lembra da inenarrável Revolução dos Pregos, quando Ângelo Correia sobraçava a pasta da Administração Interna?... Ou uma célebre visita que uns quantos estiveram para fazer às montanhas de Timor-Leste, mas que acabou por abortar, dado ter sido descoberta e por via dos interesses dos Estados Unidos ainda se passar pelo apoio à presença indonésia naquela nossa província ultramarina?
Muito sinceramente, eu penso que Zita Seabra, certamente conhecedora de que todos os Estados do Mundo praticam a espionagem, e perante o que se tem passado por cá nos últimos tempos, faria melhor em ponderar nas palavras de D. Januário Torgal Ferreira, ou, mais recentemente, nas de D. Manuel Linda, no seu corretíssimo artigo do Correio da Manhã, em vez de andar por aí a escrever ou a revelar o que viu, ou lhe pareceu, no interior do PCP. Nem um qualquer pide ou legionário alguma vez se deu a semelhante luxo face às instituições que serviram! De resto, os seus colegas que deixaram o PCP nunca desceram a um ponto como o que Zita Seabra vem persistindo em constituir como sua linha atual de olhar a História. Até porque só ela se pode considerar culpada por ter aderido ao PCP, tal como num outro dia, se, por via de nova mutação de cento e oitenta graus, deixar a Opus Dei e aderir ao Islão. Mesmo o Direito à Asneira tem as suas regras. Vive-se hoje, em Portugal, um tempo surreal.

Hélio B. Lopes, Dr.