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Refletindo numa manchete
O caudal noticioso que atinge os portugueses, com um ritmo realmente diário, é tão grande, que nem sempre se torna fácil comentar um ou outro tema oportuno. Ou por falta de espaço, ou por ausência de tempo, ou pela tal cadência imparável, alguns temas vão entrando, digamos assim, em fila de espera no domínio do comentário ou da opinião. E foi isto, precisamente, que se deu com certa manchete jornalística de há uns dias atrás.
Como tenho referido, em condições normais – ao longo do ano letivo, como gosto de referir –, costumo tomar conhecimento das primeiras páginas dos jornais do dia seguinte pouco tempo antes da uma da noite, mormente na RTP Informação. Tomei deste modo conhecimento de certa manchete, não recordo agora de que jornal, que se intitulava do seguinte modo: Passos está como Marcelo Caetano: sem Angola, Portugal não é viável.Por razões que já não recordo, no dia em que o jornal foi publicado não tive a oportunidade de ler a grande comunicação social jornalística, nem mesmo recordando agora se, ao menos, acompanhei o noticiário da noite. Sei, isso sim, que nunca mais voltei a tomar conhecimento do que se continha na notícia correspondente. Creio, com probabilidade elevada de estar certo, que todo o tema se deveria referir à viagem de Estado realizada a Angola.
Se tal minha ideia corresponde à realidade, isso terá de significar que o Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, terá afirmado qualquer coisa do género: as relações económicas de Portugal com Angola são-nos absolutamente essenciais, e constituem um fortíssimo suporte para o nosso futuro e para que saiamos da crise. Quase com toda a certeza, terá andado a notícia ao redor desta realidade por mim ora estimada.
Mas o objetivo deste meu texto é o de saber se a afirmação que surge na manchete – Passos está como Marcelo Caetano: sem Angola, Portugal não é viável – tem ou não um fundamento económico, até histórico, para quem assim possa pensar no tempo que passa. E custa-me imaginar que possa existir quem hoje pense que Marcelo Caetano não estava correto. De resto, e como tantas vezes pude já referir, tem sido reiterada a afirmação de Adriano Moreira, a cuja luz Portugal precisou sempre de ajuda. No fundo, olhando sem preconceitos o que está em causa, é o mesmo que, afinal, Marcelo Caetano havia referido e pensava.
Simplesmente, Marcelo Caetano e Adriano Moreira, ao menos para alguns, seriam concidadãos a não ponderar, dadas as suas ligações ao regime constitucional da II República. O mesmo não se poderá dizer do cientista e académico, Manuel Sobrinho Simões, que costuma surgir num programa da SIC Notícias, moderado por Ana Lourenço, num caso recente com Francisco Balsemão.
Qual não foi o meu espanto, quando lhe ouvi referir para o seu colega de diálogo que Portugal tem gente a mais, porque o que produz não chega manter a comunidade destes dias! Ou seja, Manuel Sobrinho Simões, ao menos implicitamente, disse ali o mesmo que o Primeiro-Ministro: emigrem ou vivam com muito mais limitações. Por outras palavras: continuamos a precisar de ajuda, mesmo daqueles portugueses que o façam por via da emigração e de lá nos mandem o essencial dinheiro para ir mantendo as suas famílias. Ou, de um outro modo: já sem Angola, temos de procurar essa ajuda por um qualquer outro lugar do Mundo, só Deus sabendo como…
Por fim, o facto de só agora ter tido a oportunidade de tratar este tema permite-me nele integrar os mais recentes comentários do líder do Comité Olímpico Português, bem como do nosso chefe de missão. Do primeiro surgiram estas palavras repletas de verdade: este é o retrato do País no seu melhor e no seu pior, baseado em individualidades, resultados que são a imagem certa de Portugal. E mais: o sistema desportivo português é obsoleto, acabando, infelizmente, por tudo ter ficado de acordo com as minhas previsões iniciais.
Lamentavelmente, aquela imagem referida por Vicente de Moura está a anos-luz de ser coisa singular: olhamos à nossa volta, e a cada esquina encontramos o melhor e o pior de Portugal. Fazem-se estudos, dão-se opiniões de gente supostamente abalizada, pratica-se a democracia formal, mas as coisas vão de mal a pior. O Portugal de hoje, salvo raríssimas exceções, é o Portugal de sempre, ou seja, o Portugal possível.

Hélio B. Lopes, Dr.