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Da Síria às Pussy Riot
Por um acaso, nesta última terça-feira de Agosto, tive a oportunidade de encontrar em dois jornais portugueses outros tantos textos publicados em jornais russos: o primeiro, de Olga Chetverikova, intitulado, AUTORES E DIRETORES OCULTOS DO DRAMA SÍRIO, publicado no Pravda, e o segundo, de Erica Prado, com o título, O QUE VOCÊ REALMENTE SABE SOBRE PUSSY RIOT?, publicado na Gazeta Russa.
Claro que se trata de dois órgãos de comunicação social russos, pelo que há que ler os referidos textos com a devida atenção. Contudo, ative-me, acima de tudo, ao conteúdo dos mesmos, comparando-os com o que se sabe dos dois casos, mas usando, por igual, o conhecimento que tenho da geopolítica dos dias que passam, e que são, de resto, um naturalíssimo prolongamento do que vem da História passada e mais ou menos recente.
O que nos conta, com pormenor, Olga Chetverikova é, no fundo, o que eu mesmo de há muito venho mostrando através dos meus textos: o drama sírio, de facto, foi montado e é alimentado pelos Estados Unidos, para tal deitando mão de Estados seus incondicionais aliados, que têm também interesse em derrubar o atual poder sírio, substituindo-o por uma aparente democracia mas que lhe seja submissa.
Esta mudança, como se torna evidente, ampliaria o poder estratégico dos Estados Unidos, e dos tais seus incondicionais aliados, mas diminuiria, em contrapartida, o do eixo Coreia do Norte-China-Rússia-Irão-Síria, por cujo meio se situarão, ainda, o Paquistão e o Afeganistão, assim as circunstâncias o permitam.
Claro que se poderá sempre dizer que a recíproca é também verdadeira. Simplesmente, com o problema assim posto, num ápice se poderia responder com esta realidade absolutamente objectiva: o eixo Coreia do Norte-China-Rússia-Irão-Síria não se encontra em expansão seja para o lugar que for. Mesmo os casos antes referidos, do Paquistão e do Afeganistão, não terão uma passagem simples nem rápida para fora do eixo da presença ou da influência dos Estados Unidos. Não faltam exemplos a corroborar uma tal conclusão.
Por sorte, nós vivemos hoje numa democracia, o que não acontece, por exemplo, na Síria, de resto a viver uma guerra civil alimentada a partir do comando estratégico dos Estados Unidos. Ou seja, nós conhecemos muitíssimo bem o que os Estados Unidos e a União Europeia pretendem dizer quando pronunciam a palavra democracia. Basta olhar a pátria do Tio Sam, e logo lá encontramos a banca e os banqueiros que conduziram o Mundo ao estado que hoje conhecemos. Como também encontramos o lugar onde os empregados dos milionários pagam dez vezes mais impostos que os patrões. A democracia, portanto.
Em contrapartida, o texto de Erica Prado é por igual muito claro, percebendo-se que uma coisa é saber se a Rússia é um paraíso, outra o que realmente está em jogo com o caso das Pussy Riot. Injustamente condenadas a dois anos de prisão efetiva – mereciam muito mais –, não pode passar sem ser percebido o papel de Madona, mostrando oportunismo, cobardia e, porventura, mesmo algo encomendado por alguém.
Nos Estados Unidos, aquando da abatotada vitória de John Kennedy sobre Richard Nixon, este ainda constituiu advogado, determinado a mostrar o que se passara. Muito meses depois, com a finalidade de evitar que o Mundo soubesse, para mais em tribunal, o que se passara, Nixon pediu para que o processo não continuasse. E a verdade é que ninguém do tempo e do mundo do espetáculo veio a público expor as misérias de uma tal fraude eleitoral. E foi assim porque todos sabiam o futuro que lhes estaria reservado...
Mas poderia citar-se o caso da nova vitória batoteira de George W. Bush sobre Al Gore, por via da qual o Mundo inteiro pôde acompanhar o que realmente é a dita democracia norte-americana. Estranhamente, Madona nunca veio a público acusar as autoridades norte-americanas, mormente as da Florida ou as comissões ligadas a um patético desempate, do que quer que fosse: comeu e calou.
Sem espanto, o nosso PS, campeão nacional das aparências, num ápice se deitou a acompanhar Madona e Kasparov, considerando a condenação injusta e pedindo a revisão da sentença! Mas, e o tiroteio, com bala real, sobre os mineiros sul-africanos? E a devolução de Pinochet ao Chile, por Jack Straw, passando por sobre a decisão do Supremo Tribunal do Reino Unido? E porquê o apoio do PS ao dos Estados Unidos, primeiro indireto e agora já direto, aos ditos rebeldes sírios? E que razões para o seu silêncio ao redor da sistemática violação de Direitos Humanos dos palestinianos por parte de Israel?
Ficam, pois, os músicos portugueses, nos termos da recente tomada de posição de Madona, de Kasparov e do nosso PS, a saber que invadir a Sé de Lisboa para tocar uma qualquer charada contra uma suposta batota eleitoral nada tem, à luz da apreciação daqueles, qualquer mal. É o tempo do vale tudo.
Andaria muitíssimo melhor o PS – seria preciso ter coragem…– se se determinasse a alertar o Mundo para as lixeiras plásticas que já têm lugar, por centenas de milhares de quilómetros quadrados, no Pacífico e no Atlântico. Duas lixeiras que, nas palavras do cientista Charles Moore, traduzindo a era do plástico para que nos atiraram, acabará por conduzir ao suicídio da Humanidade. E se nos determinarmos a pensar um pouco, esta recente pressa em colonizar Marte poderá significar muito mais do que se pensa…

Hélio B. Lopes, Dr.