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Chegou a hora de ouvir os Portugueses
Com alguma admiração, foi como há momentos acabei de acompanhar a comunicação do Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, aos portugueses e aos membros da Tróyka, desfazendo naqueles e seguindo as regras desta última. De um modo simples: tudo ficou ainda pior, mas agora ainda para mais portugueses, com exceção do caso dos empresários.
As recentes palavras do Presidente Cavaco Silva, de que não poderiam ser os mesmos a sofrer novos sacrifícios, simplesmente caíram por terra. A referência de Diogo Freitas do Amaral sobre as taxas dos maiores vencimentos, mormente sobre as dos "tubarões", foram atiradas para a lixeira das ideias. As palavras desta quinta-feira de Adriano Moreira, sobre o risco de se ter já atingido a fadiga fiscal, simplesmente foram esquecidas. Enfim: um desastre!
As palavras do Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, contêm erros políticos intencionais e análises malabaristas de quanto está em jogo. No primeiro caso, porque assaca ao estado do País que lhe chegou uma situação de caos, quando a mesma, ainda que assim fosse, tinha encontrado um apoio para o PEC IV por parte de Merkel e da União Europeia, que teria evitado o recurso ao resgate. Um apoio que Pedro Passos Coelho e a direita dos interesses nunca imaginaram que viesse a ter lugar. Um apoio que, a ter ido por diante, levaria ao fim da carreira política de Pedro Passos Coelho no PSD. Valeram-lhe, em boa verdade, o PCP e o Bloco de Esquerda...
Mas estas palavras do Primeiro-Ministro encerram, por igual, análises malabaristas de quanto está em jogo. Por um lado, porque não existe nenhuma razão para tratar de modo diferente os reformados e os que se encontram no ativo. Por outro lado, porque a referida diluição de um dos subsídios pelos doze meses do ano acabará por torna-lo quase invisívl aos olhos dos assim atingidos. Além do mais, a taxa de mais sete por cento volta a incidir sobre os já antes atingidos. E, por fim, não é preciso ser adivinho para perceber o sentido das palavras de certo secretário de estado na Assembleia da República. Ou seja: tudo irá ficar ainda pior do que já está.
Claro que a União Europeia, a Tróyka e os mercados estão muito satisfeitos com o Governo de Portugal, mas a grande verdade é que não consideraram a tal dita boa prestação como algo que pudesse justificar a tal flexibilização do programa em curso de aplicação. O contentamento deriva, e tão-só, da implantação plena do modelo neoliberal, marcado por vencimentos cada dia mais baixos, acarretando uma crescente perda de dignidade na vida das pessoas e das suas famílias.
Hoje, já a plena voz, os portugueses, embora com dor grande, perceberam esta realidade evidente: tudo está pior e sem fim à vista, consequência de uma política logo anunciada por Pedro Passos Coelho ao tempo da sua vitória para a liderança do PSD. O que José Sócrates exigiu aos portugueses, ao pé do que estes sofrem agora, é um autêntico infinitésimo. E o que então se ouvia a magistrados, políticos, comentadores, jornalistas, por aí fora!… E como reina hoje o silêncio!!... É o dia e a noite, e sem grande exagero.
Perante o objetivo desastre político-social operado por este Governo de Pedro Passos Coelho, é minha opinião sincera de que chegou o momento de dar a palavra aos portugueses. Pelo meu lado, não tenho um ínfimo de dúvida: o PSD, em tais eleições, levará um verdadeiro tareão eleitoral. Pedro Passos Coelho ficará na História de Portugal como um dos piores líderes de Governo que surgiram na História da III República. Os portugueses, e na sua generalidade, nunca o esquecerão…
Restam o Presidente da República, os deputados mais corajosos e o PS. Quanto ao primeiro, pouco há a esperar, até porque se lhe pôde já ouvir que um Orçamento de Estado não pode ser recusado por assim nunca ter sucedido e pelo momento – cada dia pior – que ora passa. Sobre o PS, a verdade está à vista: depois de ter viabilizado o Orçamento de Estado de 2012, o PS vê o completo defraudamento de tudo o que se supõe ser o seu ideário, se é que tal ainda existe. Restam, pois, os deputados mais corajosos. Tal como escrevi há já um tempo atrás, este cenário seria, naturalmente, o mais expectável. Espero, pois, que se determinem e rapidamente, a gizar o correspondente pedido de apreciação sucessiva da inconstitucionalidade do próximo Orçamento de Estado. Enfim: um verdadeiro desastre político-social!

Hélio B. Lopes, Dr.