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Amadorismo e não só
Li com a necessária atenção e com grande interesse as palavras do bispo de Viseu, D. Ilídio Leandro, à Renascença, a propósito das terríveis provações que têm vindo a atingir os portugueses e o próprio País. E, concordando com quanto disse, entendo que a realidade que se vem vivendo no seio da nossa vida pública vai muito para lá do amadorismo político que referiu.
D. Ilídio Leandro sintetizou o seu pensamento, e certamente a sua dor, em três palavras simples mas muito significativas: indignação, desilusão e desapontamento. Três palavras que nos transmitem uma dinâmica interpretativa sustentada e naturalmente consequente. Ainda assim, e como o título deste texto sugere, o tema é realmente mais vasto.
Há já uns bons anos, algum tempo depois da queda do comunismo na antiga União Soviética, conversando com certo amigo mais velho em certa pastelaria por mim frequentada, que era também amigo de D. José Policarpo, disse-lhe sensivelmente estas palavras, usuais entre homens amigos: pergunta lá ao tipo se concorda com a minha ideia de que o neoliberalismo atual, de origem anglo-saxónica e protestante, agora com a globalização a dar-se, é, ou não, o grande inimigo da Igreja Católica.
Uns dias depois, talvez já na semana seguinte, lá me voltei a encontrar com o meu amigo, dele tendo recebido esta resposta: ouve, já falei com o D. José, e ele diz que sim, que acha que tens razão. Bom, como teria de ser, e como continuo a ter todas as razões para acreditar na palavra do meu amigo, também acreditei e acredito que a sua conversa com D. José Policarpo teve lugar e nos moldes então relatados na mesma.
Por essa altura, já com o fim do comunismo quase por toda a parte, teve lugar a tal mudança no critério da distribuição dos impostos pelos cidadãos norte-americanos. Estava-se no tempo de Reagan, primeiro, e de Bush, mais tarde. E para se perceber bem como o grande poder norte-americano do tempo atuava, nada como ler, SEMENTES DE FOGO, de Gordon Brown, onde o autor conta o que se passou em torno do caso de Tiananmen. Quem ler este texto, quase com toda a certeza, ficará boquiaberto com o cinismo do Governo de George Bush, e de como, afinal, sempre que conveniente, de pronto surge a censura nas grandes cadeias de televisão dos Estados Unidos.
Na Europa, porém, continuava a desfrutar-se da estrutura social construída depois de 1945, ainda com o respeito pela História, pelos seus valores de sempre, com o reconhecimento natural das fronteiras dos Estados, que chegaram mesmo a ser repostas depois dos crimes do III Reich, mormente nos casos Oder-Neisse e Curzon, pelas diferenças culturais e pela capacidade produtiva própria de cada Estado, naturalmente determinada pelo potencial histórico-económico de cada um.
A democracia passou a ser meta expectável para qualquer Estado europeu, incluindo aqueles que, por razões históricas, ainda estivessem sob a vigência de ditaduras ou de situações autoritárias. Aos poucos, porém, passou a ter lugar uma aceleração da estruturação europeia enquanto entidade supranacional. Mas, como se tem vindo a ver, e sempre seria facilmente expectável, uma tal estrutura simplesmente não tem uma real unidade, e pela razão evidente de que cada um dos Estados históricos, com a sua História própria, é que dita a sua capacidade própria para se organizar e progredir. Enfim, criou-se um verdadeiro fracasso, logo a começar pelo monstro que é a própria estrutura funcional da União Europeia.
Em consonância com este espírito de aparência inovadora, deu-se esse verdadeiro crime contra a Humanidade que é a Organização Mundial de Comércio, já então suportada num terreno ideologicamente vazio, que foi perdendo valores estruturantes de qualquer comunidade social, criando-se a falsa ideia do poder resolutivo das grandes tecnologias, deixando-se resvalar as sociedades para um ambiente sem limites éticos à liberdade da vontade, e assim criando uma sociedade onde o novo e o fútil, naturalmente sempre caros, passou a ser o objetivo central da vida das pessoas assim distraídas. Ou seja: o dinheiro passou a elemento essencial para a realização, agora sempre passageira, de cada um.
E foi por aqui que a nossa crise nos atingiu. Estávamos mal? Claro! Mas podíamos resolver o nosso problema sem termos ido por este caminho? Evidentemente! E porque é esta a realidade, surge a natural pergunta: o que foi, então, que se passou? Muito simples: aproveitando erros anteriores, mas que não levariam necessariamente ao caos sem futuro atual, provocou-se o recurso ao resgate, primeiro, e vem-se aproveitando a aplicação do Memorando da Tróyka, indo mesmo imensamente mais longe, para provocar um objetiva mudança na estrutura constitucional. Ou seja: aquela inicialmente apontada por Pedro Passos Coelho, quando tomou a liderança do seu partido, mas que se viu obrigado a guardar temporariamente.
Mostra isto, pois, que o problema não é só de amadorismo político. É, isso sim e sobretudo, de determinação ideológica, apontada à criação de uma sociedade do tipo profetizado pelos neoliberais que levaram às mudanças no tempo de Reagan e de Bush, e até de Clinton, e que se pode traduzir deste modo sintético: o Estado deve reduzir-se ao ínfimo, cada um a tratar de si e dos seus problemas, a esmagadora maioria a só dispor do mínimo essencial à sobrevivência e a grande riqueza com o mínimo de impostos, porque, supostamente, tal riqueza irá ser investida, assim criando trabalho. Bom, nós pudemos ver – e com que dor!! – o resultado de um tal desumano modelo. Vimo-lo, continuamos a vê-lo e a pagá-lo dolorosamente. Um modelo que se pode sintetizar deste modo, ainda mais preciso: quem tem muito, paga pouco, e se estoirar, pagam todos para ele.
Escuso-me a demonstrar aqui o erro desta argumentação, porque tal demonstração está já feita e é já dominada por todos e por todo o Mundo. Nós chegámos ao ponto de ouvir os banqueiros norte-americanos explicar nas comissões do Congresso que a lei não se lhes aplica, porque é assim em todo o Mundo, e se lhes for aplicada, perdem face aos outros! E é tudo isto razão para nos indignarmos? Claro! E constitui um desapontamento para quanto se esperava? Obviamente! Além do mais, há realmente muito amadorismo em toda a nossa classe política, mas a razão de fundo de se ter chegado a este ponto é muito mais vasta e profunda, é-nos alheia em boa medida, e resulta também de se ir atrás dessas modas do tempo sem um critério ético de atuação política.
Termino com as palavras recentes de António Ramalho Eanes: já não será no seu tempo que se poderá ver um Portugal que venha a ser próspero para os seus filhos e netos e para os dos outros. Sendo Eanes um português ilustre e muito bem informado, esta estimativa da esperança do nosso antigo Presidente da República, a não estar correta, sê-lo-á por defeito.

Hélio B. Lopes. Dr.