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Piranço
As terríveis provações que os portugueses estão hoje a sofrer devem-se, como já se tornou absolutamente claro, a um modo muito típico de trabalhar por parte de um grupo de políticos, até simples meios-políticos, que surgiram dum passado de nada, apetrechados com alguma tecnicidade, mas cujo instrumento ético de suporte é o piranço.
Os mais velhos ainda na nossa companhia viveram o tempo político da II República, e por aí conheceram, por razões diversas, o sentido que comportava o conceito de Pátria. Foi um conceito que sempre se fez pagar, e para o qual, de um ou de outro modo, todos tiveram de contribuir. Mas o que sempre se pôde ver foi que o piranço nunca foi um modo de efetuar um pagamento que à porta de todos sempre bateu.
Houve portugueses que pagaram esse custo com a defesa das províncias ultramarinas, feito presencialmente, e muitas vezes contra a vontade íntima. Mas estes nunca recorreram ao piranço, como facilmente se percebe.
Outros houve que pagaram a defesa dos seus ideais com a prisão, por vezes por tempos extensos, até em lugares muito distantes da sua terra e dos seus. Mas pagaram um preço, feito na defesa de valores que se situavam para lá do mesquinho e do efémero, e em que nunca recorreram ao piranço.
Casos houve, ainda, em que muitos dos nossos concidadãos se determinaram a procurar apoio na sua luta contra a opressão que sentiam, mas sempre lutando por ideais com representatividade universal, generalizadamente aceites, mas sem nunca se darem ares de piranço.
Estes nossos concidadãos, invariavelmente, tinham valores. Tinham valores em que acreditavam, pelos quais se batiam, sempre sofrendo, e por vezes morrendo mesmo. Valores que eram isso mesmo, situados para lá do efémero e do mesquinho. Foram estimáveis concidadãos que sempre recusaram o recurso ao piranço.
Lamentavelmente, desde há décadas que se descurou a defesa desses valores, embarcando muitos, mais ou menos ingenuamente, ou menos ou mais oportunisticamente, na defesa do dinheiro, da riqueza, da luxúria e do descartável. Gente nova, por vezes tecnicamente apetrechada, mas sem outros valores que não os antes citados.
Pois, o resultado está agora à vista de todos: ou se lhes dá muito, ou darão o piranço. Um piranço, de resto, que chega mesmo a ser apontado como potencialmente virtuoso, espécie de experiência a ser seguida, onde acabarão por mostrar o seu verdadeiro valor os melhores. Mas os melhores em matéria de piranço.
Estes nossos concidadãos do piranço vivem onde mais lhes dão. Não têm outros valores a não ser o pilim, fonte quente que determina o sentido do piranço. Um piranço que está a conduzir Portugal para o sumidouro da sua História de séculos. Vivemos hoje, pois, o magno problema do piranço.

Hélio B. Lopes. Dr.