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A telenovela em episódios
Como tive já a oportunidade de reiteradamente explicar, o grande erro estratégico dos portugueses foi materializado na escolha de Aníbal Cavaco Silva para o desempenho do cargo de Presidente da República. Ainda assim, foi um erro a que esteve subjacente a completíssima divisão dos designados partidos de esquerda, incluindo a que teve lugar no seio do próprio PS, com o surgimento de dois candidatos, qualquer deles muito fora do que seria o circunstancialismo natural.
Assim se tornou Presidente da República, pela primeira vez depois da Revolução de 25 de Abril, uma personalidade conservadora, oriunda da direita política, sem histórica identificação na luta contra o regime constitucional da II República, por cuja ação política como líder do Governo se haviam já podido aferir alguns aspetos da respectiva estrutura ideológica.
A eleição de Aníbal Cavaco Silva teria sempre de determinar, como veio a ver-se até hoje, uma constante conflitualidade com o setor da esquerda política, embora uma conflitualidade muito surda, digamos assim. A mesma, porém, começou logo a ter lugar, sempre muito indiretamente, ao tempo da governação de José Sócrates, por via do que os jornalistas apelidavam de recados, mas que ia servindo para destruir a credibilidade do Governo, tanto no plano interno como no externo.
Muitos tomaram por certo que depois de tudo o que se havia visto através de tal telenovela política seria suficiente para levar o PS de José Sócrates a uma derrota frente ao PSD de Manuela Ferreira Leite, mas o resultado foi uma desgraça para este partido. Porém, o PS de José Sócrates acabou por perder a maioria absoluta, tendo-se depois assistido à segunda via da divisão eleitoral que tivera lugar na corrida presidencial: PCP e Bloco de Esquerda, completamente irmanados com o PSD, o CDS/PP, o Presidente da República e a feroz campanha orquestrada ao nível da grande comunicação social televisiva, levaram à histórica e fatal reprovação do PEC IV.
Este PEC IV, como pude também já explicar, nunca se imaginou que viesse a ser aprovado por Merkel e pela União Europeia, pelo que o que se deu foi para a direita portuguesa um balde de água gélida. Uma tal circunstância, como se conhece já hoje bem, determinaria a mui curto prazo o fim da liderança partidária de Pedro Passos Coelho, seguindo-se-lhe, com elevada probabilidade, a de Paulo Rangel, que reunia o apoio dos designados cavaquistas.
Simplesmente, a aprovação do PEC IV teria evitado, como tantas vezes José Sócrates referiu, todas as atuais consequências que se estão a ver com o atual resgate. É bom que os portugueses deixem de fazer figura de parvos e vejam como em Espanha Mariano Rajoy tanto luta contra a assunção de um resgate, garantindo mesmo que não aceitará ordens de fora sobre onde se deve cortar… E olhe-se a postura de Mário Monti, muitíssimo mais próximo da posição patriótica de José Sócrates que a do alinhamento incondicional de Pedro Passos Coelho com Angela Merkel, mesmo quando esta já começa a estar isolada. É preciso ter os olhos abertos e dedicar um mínimo de atenção ao decurso da vida pública, seja a interna, seja a internacional.
A verdade, porém, é que Pedro Passos Coelho lá conseguiu chegar à liderança do PSD, acompanhado da sua equipa de sempre e que tanto o tem ajudado a caminhar para a desgraça. Nela houve já mesmo quem se propusesse dar o piranço! Ora, o que foi que Pedro Passos Coelho logo indicou aos portugueses? Bom, que se propunha alterar a Constituição da República, mas em termos que todos perceberam constituir uma revisão constitucional destinada apor um fim no Texto Fundamental de 1976, gerado na sequência da Revolução de 25 de Abril. Bom, teve que rapidamente recuar, embora por razões meramente táticas, dado que tal proposta só dava uma garantia nas eleições que se seguiram: a derrota. E foi neste contexto que se lhe pôde escutar o antónimo do que agora vem fazendo.
Chegado ao Governo, a realidade foi a que se tem vindo a ver, e que já a mãe da tal jovem que o interpelou havia referido à filha e esta a Pedro Passos Coelho. Aos poucos, de medida em medida, com passos à frente e outros atrás, o Governo de Pedro Passos Coelho tem vindo a operar a tal revisão constitucional que culminará, de facto, no fim real da Constituição de 1976. Cada medida destruidora de um direito essencial é sempre explicada como destinada a salvar o setor que está a ser destruído. O controlo parlamentar, como se torna evidente, não existe, porque a estrutura constitucional o não propicia.
Aos poucos, as sondagens vieram a mostrar o terrível descontentamento que já hoje reina por todo o País, materializado num imparável crescimento do desemprego, da pobreza, da miséria, da emigração, do suicídio, da criminalidade violenta e de mil e um outros horrores nunca vistos em Portugal. E o que é que se tem ouvido do Presidente Cavaco Silva, agora que nos habituou àquele tipo de intervenções que praticava na governação de José Sócrates? Bom, nada. Ou antes, palavras que só serviram para o colocar no singular lugar nunca até hoje tido em Portugal, aos olhos dos portugueses, por um Presidente da República.
Convém, porém, notar que, mesmo agora, quando milhões protestam contra a ação deste Governo, quando as duas sondagens mais recentes mostram já um cenário irreversível para esta coligação, quando esta está mais que dividida, como hoje mesmo salientou o Vice-Presidente do CDS/PP, José Manuel Rodrigues, quando os governantes já só conseguem apresentar-se publicamente sob escolta policial, depois dos avisos mais recentes do SIS e da PSP, o que faz o Presidente Cavaco Silva? Bom, convoca o Conselho de Estado e o Ministro das Finanças.
Não poderá este, como é evidente, sair dali em bom estado, porque a sua política será completamente posta em causa e por razões mais do que válidas. Mas irá o Presidente Cavaco Silva convocar eleições antecipadas, como se deu com o Governo de Pedro Santana Lopes, na sequência do artigo sobra a boa e a má moeda? Claro que não! E não porque o PS venceria essas mesmas eleições. Ora, o que está hoje em jogo, aproveitando a má governação atual, com os seus terríveis resultados para muitos milhões de portugueses, é afastar a atual liderança da governação. Não duvido, infimamente que seja, das palavras de ontem de Maria João Avilez, segundo as quais o que Mário Soares defende é um Governo de iniciativa presidencial. Ou seja, até Soares foge da democracia, depois de tanto criticar os Governos de Papademus e de Monti! É, inquestionavelmente, o fim da III República em Portugal. É a demonstração prática e inquestionável da completa falência da democracia.
O que ora se perfila no horizonte, com maior probabilidade, é o regresso de um cavaquismo mitigado ao poder, seja por via de Manuela Ferreira Leite, seja por alguém da iniciativa presidencial – Catroga, Vítor Bento ou um outro com um perfil deste tipo – e que teria, aí, o apoio do PS de Seguro, mesmo que tudo o que se vai vendo continuasse sensivelmente na mesma. Preste o leitor alguma atenção, e verá que os críticos da desastrosa ação política deste Governo, mormente no seio do PS, ora andam para diante, ora para trás…
Por fim, uma síntese da realidade: estamos a pagar o terrível erro de ter escolhido Aníbal Cavaco Silva para Presidente da República, porque não estando num paraíso sem ele, nunca um qualquer Pedro Passos Coelho se teria atrevido a operar a destruição da Constituição de 1976 nas barbas do próprio Presidente da República, tal como se tem vindo a ver.
Como todos os portugueses facilmente perceberão, o silêncio do Presidente Cavaco Silva e a recusa de recorrer, nas terríveis atuais circunstâncias, ao método democrático, auscultando os portugueses, mostram que o Presidente Cavaco Silva, com o silêncio estrondoso da Igreja Católica, têm sido os restantes dois pilares da política do Governo de Pedro Passos Coelho. E já agora: é pena que Paulo Portas tenha chegado ao ponto de aceitar a figura política que acabou por protagonizar. Ele, afinal, sabia de tudo, terá disso discordado por escrito, mas de um modo completamente inconsequente. Assim como que para memória futura…

Hélio B. Lopes. Dr.