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A entrevista de António José Seguro
Acaba de ter lugar a entrevista de António José Seguro à RTP, na pessoa de Vítor Gonçalves, e que veio mostrar, contra o que eu esperava, uma muito excelente intervenção do líder do PS, dando mostras de grande honestidade intelectual e política, com uma excelente preparação nos temas que lhe foram colocados, e que foram quase todos os que se justificava.
Em contrapartida, e tal como já se dera com a entrevista feita em S. Bento a José Sócrates, o entrevistador não podia ter estado pior: constantes interrupções fora de tempo, uma atitude mais própria de um contraditor que de um entrevistador, a quem compete colocar as questões que interessam aos cidadão, deixando que as respostas vão até ao fim, e evitando colocar questões inúteis, como a de tentar saber o que irá António José Seguro dizer ao Ministro das Finanças no Conselho de Estado. Em síntese: uma muitíssimo má prestação de Vítor Gonçalves.
António José Seguro explicou com clareza a razão de votar o PS contra o Orçamento de Estado, (OE), e a de poder vir a apresentar uma moção de censura contra este Governo, ainda com Pedro Passos Coelho à sua frente. Vota contra o OE porque o mesmo foi gizado à luz da ação estratégica que já produziu os terríveis resultados que os portugueses estão a pagar com sofrimento, e completamente à revelia do que havia sido previsto pelo Governo. E poderá apresentar uma moção de censura a este se se mantiver a sua atitude sobre a TSU. A tal medida sobre que se conhece agora a posição contrária do CDS/PP, por via da qual Paulo Portas acabou por encostar à parede Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar e o PSD.
Também foi possível perceber que António José Seguro, se acaso liderasse o Governo, não deixando de cumprir as obrigações assumidas por Portugal para com a Tróyka, discutiria e bater-se-ia por ligeiras mudanças nas regras hoje em vigor. De resto, esta foi a posição desde sempre assumida pelo líder do PS desde o início das suas funções no partido.
Por outro lado, António José Seguro foi muito claro quanto aos sacrifícios a pedir aos portugueses: pedi-los-ia a todos, explicando, fácil e naturalmente, a sua posição perante as rendas excessivas na energia e nas PPP, porque a sua posição é a ali exposta, não se encontrando acorrentado ao que vem de trás, e venha de quem quer que seja. Mas o que foi muito importante, e pode ter passado de um modo pouco claro, é que António José Seguro salientou que esses sacrifícios têm de ser dimensionados numa perspetiva global, e não apenas ao redor da TSU, que contém, sobretudo, um pecado de imoralidade ideológica. Por aqui garantiu, pois, que irá bater-se, tal como referiram Manuela Ferreira Leite e António Bagão Félix, pela consideração da ilegalidade do corte dos subsídios aos reformados e pensionistas.
Mas António José Seguro, embora de um modo menos claro, lá assumiu uma preocupação com o Estado Social que nunca esteve presente no atual Governo de Pedro Passos Coelho. Tal como há um tempo atrás já havia referido, uma coisa é voltar para o estado inicial, à chegada deste Governo ao poder, outra a adaptação às diversas realidades que estão em jogo nestas questões, entre as quais o direito de tentar salvar a vida, o do acesso ao saber e à cultura e o de poder terminar a vida com dignidade. Percebeu-se que todos estes temas estão presentes no espírito do líder do PS, o que se não dá com a ação política do atual Governo, como se tem visto à saciedade.
Mostrou ainda, António José Seguro, mais de três centenas e meia de propostas sobre temas diversos, o que deita por terra toda a propaganda feita na grande comunicação social televisiva pelos comentadores de sempre, ou seja, os que achavam que o meio décimo terceiro mês de Sócrates era um horror, mas que os dois subsídios de Passos Coelho são coisa natural…
Quanto ao caso da RTP, estranhamente – ou não?...–, Vítor Gonçalves mostrou não conhecer o que o entrevistado, de facto, havia afirmado! Bom, tratando-se da RTP e de um entrevistador da RTP, qual seria a classificação a dar-se, ao nível desta pergunta, por via deste inacreditável aspeto da entrevista? Um zero? Uma décima do valor máximo para o modo de colocar o tema? Quanto, nesta pergunta?
Em contrapartida, Vítor Gonçalves voltou a deixar-se levar por meros mimetismos do que se faz lá por fora, François Hollande, sem ser capaz de pedir a resposta do entrevistado para a questão que está em jogo e que se prende com o Princípio da Equidade Fiscal, que tão pouco moralizado está em Portugal. Impediu, deste modo, que os portugueses pudessem conhecer as linhas principais do pensamento de António José Seguro num tema que é candente entre nós.
Também ficámos sem saber se António José Seguro admite, ou não, nacionalizar algum setor estratégico para Portugal, ou como proporá a defesa dos interesses do mesmo – ou mesmos – se tal se mostrar necessário. E também acabou, Vítor Gonçalves, por não colocar ao líder do PS a questão de saber se aceita eleições antecipadas para a Assembleia da República, perante o fantástico descrédito do atual Governo e das suas políticas. De resto, um Governo que só se mantém por via do apoio do Presidente Cavaco Silva e, como hoje pôde constar-se, do recebido dos bispos portugueses. Um tema de que falarei noutro texto.
Enfim, foi uma muitíssimo boa entrevista de António José Seguro, esperando eu que o líder do PS tudo faça para que o Tribunal Constitucional se venha a pronunciar preventivamente e a tempo e horas sobre eventuais inconstitucionalidades presentes no mesmo, mormente o tal esbulho dos dois subsídios, no mínimo, aos reformados e pensionistas. E quem diz preventivamente, diz sucessivamente.
E agora, por fim, um aviso: convém que António José Seguro não assuma, em nome do partido, compromissos no Conselho de Estado neste domínio do recurso ao Tribunal Constitucional. Até porque nós pudemos já ver o que se pode esperar desta maioria nesta matéria… Além do mais, o PS n’est pas lui.

Hélio B. Lopes. Dr.