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• Carta Aberta a Pedro Passos Coelho
• Quo vadis, Portugal?

Começo este artigo com referência às más lembranças e experiências políticas, então ocorridas nos tempos da chamada AD – Aliança Democrática. Lembro-me muito bem que nesses tempos muita gente em sinal de chacota e de descontentamento político, em relação à dita aliança, circulava pelas ruas deste país, ostentando no peito um curioso dístico, que dizia o seguinte: - "Votei AD, tenho culpa"!
Mas posso dizer-lhe, Senhor Primeiro-Ministro, que a respeito do "annus horribilis" desta governação actualmente conduzida por V. Ex.ª, já a este cidadão seu conterrâneo que agora lhe escreve, e mesmo sendo social-democrata, não se lhe pode assacar tais complexos de culpa, visto que nem sequer votou em si para presidente do PSD, nem tampouco votou nas últimas legislativas que o levaram ao cargo de PM, por se encontrar em gozo de férias!
Confesso que tive ainda alguns lampejos de esperança, quando inicialmente V. Ex.ª apareceu a disputar a referida liderança! Mas logo essa mesma esperança se esvaneceu, assim que reparei na sua "entourage", maioritariamente composta por felinos e bem conhecidos "tubarões"… e "testas-de-ferro" ao serviço do grande capital e dos altos interesses das empresas de topo que operam no nosso país!
Sabendo, embora, que V. Ex.ª provém de uma família de impoluta honestidade e altamente conceituada na sociedade civil vila-realense; que tem um pai-médico que é um nobre exemplo de Vida e de profícuo trabalho, quer na sua profissão, quer ainda nas Letras e na Poesia – pessoa que bem conheço dos tempos de Luanda e com quem já por aqui troquei correspondência, livros e poemas, mesmo assim optei votar no candidato que é hoje eurodeputado.
Que dizer de um PM que volta-e-meia nos aparece na televisão com aquele antigo "barão" do PSD colado às costas e a espreitar para as câmaras sobre o seu ombro? Não sendo Ângelo Correia membro do actual governo, qual será então o seu papel tantas vezes junto do Chefe do Executivo? Será que sempre se confirma que é ele o tal "pai" político e mentor ideológico de V. Ex.ª? Fartos de "pais" políticos (julgo eu) estarão já muitos portugueses!
Veja-se, nomeadamente, os casos de António Arnault e de Mário Soares! O primeiro, que apenas por coincidência acabou por ser ministro da respectiva tutela na altura da criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS), ainda hoje anda por aí a bradar aos quatro ventos, afirmando-nos que é ele o pai daquela Instituição do Estado, pese embora saber que aquele organismo existe porque vai sendo pago com os nossos impostos! Um ministro não pode nunca reivindicar para si a paternidade deste ou daquele serviço Público que entretanto se foi instalando no país, visto que mais não faz do que executar as tarefas que lhe são confiadas superiormente durante os respectivos mandatos! Um verdadeiro pai é aquele que se esfalfa a trabalhar para manter e educar os seus filhos, ao contrário de um ministro que ainda tira altos proveitos da sua tarefa, através dos ricos vencimentos e das mordomias do momento e posteriores, tudo benesses que lhes são prodigalizadas pelos respectivos cargos de Estado!
Já quanto a Mário Soares – (MS) - (o auto-intitulado pai-da-pátria) o escândalo é ainda bem maior! Sabe-se que a Pátria já nasceu há 900 anos, e que o seu verdadeiro pai foi D. Afonso Henriques! Honra seja feita a Barroso da Fonte que muito se tem batido e escrito sobre este quente tema! No entanto, talvez por questões de oportunismo político ou outras, (MS) não se cansa de chamar para si tal paternidade! Não é sem razão que se diz por aí na comunicação social, e mesmo a "vox populi", que ele leva por ano do Orçamento do Estado, a título de reformas e outras regalias afins, cerca de 500.000 € (quinhentos mil euros)! Embora se saiba que o País está hoje com um enorme défice de Segurança Pública um pouco por todo o território, a ele lhe concedem para cima de uma dezena de polícias a guardar-lhe as portas das várias residências que possui! Ainda enquanto presidente da República criticou fortemente a enorme proliferação de Fundações, mas logo no fim do seu mandato teceu as suas largas influências para constituir a sua própria Fundação! Vamos lendo e ouvindo dizer que esta Fundação custou uns milhões de euros ao erário Nacional, mas que pouca utilidade pública tem, pois apenas ali realiza uma ou outra exposição de vez em quando, apenas para não perder o respectivo estatuto e continuar a receber do Estado (fruto dos nossos impostos) mais uns bons milhares de euros anuais! A acreditar no que muita da nossa imprensa diz a respeito deste político malabarista, acerca de tudo isto e muito mais, em vez de pai da pátria ele deveria ser lembrado com um outro nome mais adequado… (e que por aí há muito já circula… de boca-em-boca), mas que, por óbvias razões, agora aqui me escuso invocar!
No que à governação de V. Ex.ª respeita, Sr. Primeiro-Ministro, devo dizer-lhe que talvez o seu primeiro erro político tenha sido o de aceitar prontamente e sem quaisquer condições prévias a indigitação do Senhor Presidente da República para ocupar o cargo que agora exerce. Devido ao caos económico/financeiro em que o País já nessa data se encontrava, talvez devesse recusar essa nomeação. Uma vez que o Povo também não lhe deu mandato claro para governar, o que o obrigou a coligar-se com o CDS/PP para tal efeito, julgo que não teria a estrita obrigação de carregar com tamanho fardo! Dada a deriva insana e irresponsável do anterior governo, que nos levou à pré-bancarrota, sou de opinião de que V. Ex.ª deveria ter deixado esse pesado ónus ao PS, que tal situação criou, para que fosse Sócrates a beber a taça de fel até ao fim!
Agora, como Pessoa inteligente que é, sem dúvida, só lhe peço que não deixe de tomar as decisões políticas mais acertadas e mais sensatas, e não contribua para destroçar o nosso PSD. Faça todo o esforço possível que estiver ao seu alcance para preservar intacto o capital de simpatia deste partido moderado, mas defensor de causas sociais, e sempre tão bem aceite por uma larga camada da sociedade portuguesa! Respeite a memória de Sá Carneiro que tanto por ele lutou! Respeite, igualmente, o louvável e profícuo trabalho nele feito por Cavaco Silva, que um dia lhe teve de unir os "cacos", quando alguns dos chamados "barões" levianamente o estilhaçaram!

Alfredo M. Guedes