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Camilo de Araújo Correia
um nome   uma referência   um exemplo

N.D. - Começava por lhe pedir que me traçasse um breve historial da Vida e Obra do seu Pai, João de Araújo Correia, Reguense de gema, que deu nome a muitas Instituições e Prémios, ao qual a Cidade de Peso da Régua muito deve pela grande difusão literária. Como o tipifica enquanto Homem? Qual o traço que melhor o personificava?

C.A.C – A vida e obra de meu Pai não cabem numa resposta, por mais capacidade de síntese que eu possa ter. Quanto à obra literária, sempre lhe direi que nos deixou, entre 1938 e 1980, dez livros de contos, sete livros de crónicas, quatro novelas, um livro de poesia e quinze títulos de assuntos diversos.

Apesar de "escravo" da sua profissão, sem convívios sociais e de confraria, veio a merecer honrosas homenagens, das mais diversas instituições, distinguindo o médico e o escritor.

Como Homem, meu pai foi de uma rigorosa responsabilidade familiar, profissional e de cidadania. O traço de carácter que mais o personificava era a rigorosa afirmação de honestidade nas pequenas e grandes atitudes.

N.D. - Na qualidade de seu amado filho, ao ver a estátua do Pai erigida em frente a uma das principais avenidas da Régua, qual o sentimento que o assola?

C.A.C – De maneira alguma, um sentimento de orgulho ou de vaidade. Antes, a íntima alegria de um encontro vivo, que muito se deve ao génio do escultor Riba Tua. Pouco depois de erigida a estátua, disse-me, de mãos erguidas, uma velhota do Peso: - "Ai, senhor doutor... o paizinho até de costas é uma pintura!"

N.D. - Como encara, nos dias de hoje, a mesma Cidade Reguense, à escala do desenvolvimento económico do País? Foi uma cidade que adormeceu e não se preparou, atempadamente, para almejar um lugar de destaque no panorama português, que lhe permitisse (agora) figurar nas melhores cidades? O que faltou? Estará, já, a enveredar por um caminho de desenvolvimento?

C.A.C – A Cidade da Régua não adormeceu. Foi estrangulada por uma sucessão de erros urbanos, alguns de bradar aos céus! A perda de Serviços e a degradação de alguns têm vindo a roubar-lhe vitalidade. Um lamentável exemplo é a Casa do Douro. A Princesa do Douro parece estar a dar conta disso. Vai atirando o queixo para a frente, numa atitude de vigorosa determinação.

N.D. - Terminaram recentemente as Comemorações dos 250 Anos da Região Demarcada do Douro. Como sentiu essas Comemorações? Julga terem estado á altura de espelhar a grandeza do Douro ou pensa que seriam desnecessárias dada a grave crise que a Região atravessa?

C.A.C – As Comemorações dos 250 Anos da Região Demarcada do Douro, pela sua diversidade e superior espírito comemorativo, foram do meu inteiro agrado. De cada vez que aconteciam, erguia a minha taça pela eternidade do nosso pátrio Douro.

É preciso que as entidades oficiais e as organizações particulares saibam cuidar dessa eternidade com luminoso espírito progressista.

N.D. - Relativamente à sua vida académica, quais os momentos mais marcantes que, passado mais de meio século, a memória perpetua dos tempos em que estudo na Faculdade de Medicina de Coimbra, onde teve oportunidade de conviver de perto com "República" e "Palácio da Loucura"?

C.A.C – Os momentos mais marcantes da minha vida académica estão nos livros "Coimbra Minha", "Coimbra Outra Vez" e em muitas crónicas que escrevi depois deles. A minha vida no "Palácio da Loucura", desde o ano de caloiro ao de formatura, é toda ela uma memória muito viva. Tive a sorte de serem os "Repúblicos", meus contemporâneos, rapazes de raro espírito académico. Com esse espírito, pudemos receber à nossa mesa catedráticos portugueses e brasileiros, artistas de teatro, músicos, escritores, jornalistas e, até, (um dia) lá apareceu o saudoso Fernando Pessa com um Prémio Nobel Americano.

N.D. - Conte-nos um episódio que mais recorda dos tempos de estudante em Coimbra.

C.A.C – O que mais recordo, por mais doloroso, aconteceu há sessenta anos. O nosso companheiro Gualter Freitas de Castro tinha acabado de almoçar connosco, quando, meia-hora depois, caiu num passeio da Baixa, fulminado por uma hemorragia cerebral. Ia a ler a um companheiro uma carta da namorada... Ele tinha o costume de nos ler as cartas de amor, com engraçadíssimos comentários.

Quando o vi estendido na mesa da morgue, chorei como nunca tinha chorado na minha vida. Boémio como só ele, senti que não se tinha fundido uma lâmpada da Alta de Coimbra: tinha-se apagado a própria lua.

N.D. - Da sua já vasta obra literária, qual o livro que mais gostou de escrever? Porquê?

C.A.C – Bem... Eu não vou deixar uma vasta obra literária... Quando muito, diversa. Mantenho, ainda, um especial carinho pelas "Histórias na Palma da Mão". O primeiro livro tem muito de primeiro amor...

N.D. - E qual julga ter sido o livro que os leitores mais gostaram? Por algumas razão em especial que lhe transmitiram ou pelo volume de vendas?

C.A.C – Os livros que me pareceram mais do agrado do público em geral, foram os de memórias académicas, onde voltaram ao palco cenas da cidade e da República. Acho que a preferência do público se deve ao sorriso que a leitura provoca.

N.D. - Falta lançar mais alguma obra?

Que projectos futuros tem em mente no campo da literatura?

C.A.C – A muita idade, a pouca saúde e o cansaço de muitos anos de trabalho exaustivo não me prometem grande futuro para fazer projectos. Irei escrevendo a minha crónica semanal, enquanto puder. Por se encontrarem completamente esgotadas as minhas memórias de Coimbra, tenciono reeditá-las num só livro, de título a lembrar os dois: "Coimbra Minha, outra vez".

N.D. - Na constante colaboração assídua em jornais, através de crónicas de opinião, quais são os temas que mais gosta de versar? Porque se debruça sobre eles, desenvolvendo-os a rigor: para elucidar os leitores e lhes despertar curiosidade aos por alguma "paixoneta" em especial?

C.A.C – Os assuntos são tantos que, por vezes, se me atropelam no espírito. Acabo por escolher aquele que se adianta aos outros pela oportunidade. Não escrevo para esclarecer ou doutrinar os leitores. Escrevo, sim, para estar com eles num agradável bate-papo à esquina ou à mesa do café. Gosto de dar às Crónicas o aspecto de encontro inesperado.

N.D. - Na condição de antigo Anestesista do Hospital D. Luís I, na Régua, considera a manutenção do Serviço de Urgências como uma prioridade cabal? O que pensa do trabalho que o Governo tem levado a cabo em matéria de encerramento de Urgências e Maternidades?

C.A.C – Depois de uma saudável luta de argumentos com o provedor Joaquim Augusto da Trindade Rodrigues, conseguimos organizar um Serviço de Urgência. Cada médico ganharia duzentos e cinquenta escudos, por cada período de 24 horas!!! Foi possível graças à evangélica vontade dos médicos que, na altura, serviam o Hospital D. Luiz I, o "Tio Luiz", como, entre nós, carinhosamente o referíamos.

E, assim, o Hospital da Régua veio a ser o primeiro do interior do País a ter Serviço de Urgência, em 1957. Seguiu-se-lhe o de Lamego.

Quanto ao encerramento de Urgências e Maternidades, devo dizer-lhe que poderia vir a compreender um ou outro acerto de natureza geográfica. Mas, jamais aceitarei este impiedoso varre-vassoura.

N.D. - Conte-nos um episódio da sua vida profissional, enquanto médico, que mais prazer ou que, pela sua dificuldade, mais tenha gostado e que, por tais motivos, recorde.

C.A.C – Preferia perder-me numa floresta, que sofrer essa pergunta! Os episódios foram tantos que até se me varreu a memória! Ora deixe cá ver... deixe cá ver... Numa tarde, estava eu com o Dr. Castro a vacinar mais uma grande revoada de crianças e notei que os nomes sucediam-se, uns aos outros, de nítida influência da emigração e das telenovelas. Carina... Vanessa... Carina... Vanessa...

A certa altura, digo eu para o Dr. Castro, meio revoltado:

- O senhor doutor já reparou que desapareceram os nomes bem portugueses?! Não se arranja uma Rosa, ou uma Margarida....

E, logo ele, a sorrir debaixo do bigode: - "Bem... eu ainda arranjei uma!"

Depois de uma boa gargalhada a duas vozes, disse para o António, o nosso auxiliar de enfermagem:

- Manda lá vir o seguinte... pode ser que isto mude! E mudou. O seguinte era um rapazinho de cabelo etacado e olhar tímido.

- Como te chamas?

- Sinfrónio...

Logo o Dr. Castro:

- Chiça... nem tanto!

As nossas gargalhadas assustaram ainda mais o tímido Sinfrónio.

N.D. - E quanto à sua vida social, há algum episódio engraçado que queira relatar?

C.A.C – Por temperamento e disponibilidade incerta não tive vida social que desse para guardar memória de grandes episódios...

N.D. - Nos próximos tempos, quais os projectos que gostaria de ver realizados na Cidade?

C.A.C – Gostaria de ver conquistados novos espaços e neles projectada uma cidade desafogada. Nunca mais edifícios plantados como couves, a devorarem-se uns aos outros. Praças e rotundas traçadas a pedido do trânsito presente e futuro. Um bom cine-teatro, onde os Reguenses se instruam, divirtam e se encontrem numa pausa saudável da lufa-lufa diária.

Policiamento que acabe com alguns estacionamentos bárbaros, faça respeitar o silêncio nocturno e acabe com o vandalismo.

Limitar a instalação de grandes superfícies comerciais, protegendo o pequeno e médio comércio, que sempre caracterizou a Régua.

Piso uniformizado, evitando a colecção de remendos, resultante de reparos anteriores.

Etc, etc, etc....

N.D. - Relate-nos um conto vivido e marcante ou determinante da sua maneira de ser.

C.A.C – A minha maneira de ser não se deve a qualquer "conto vivido", mais "marcante ou determinante". Deve-se ao factor genético, à instrução e disciplina impostas pelos grandes professores que tive, ao intenso convívio que me proporcionaram os condiscípulos, os camaradas e os colegas da vida académica, militar e profissional.

N.R. Marcamos encontro para a próxima entrevista e apenas solicitamos que não seja tão lacónico nas respostas já que os leitores gostam de saber mais e tudo ler do nosso entrevistado. Obrigado.